O isqueiro acendeu. Aspirei profundamente, sentindo a primeira tragada invadir meus pulmões, densa, ansiosa, doce.
Ted me observava com uma mistura
de fascínio e surpresa. Avancei dois passos, lentamente, soltando a fumaça que
envolveu seu rosto antes de se dissipar no quarto abafado.
Cada movimento meu tinha peso e
direção: os dedos correndo pelo tecido da cortina, a respiração mais profunda,
os olhos fixos nos dele. O cigarro ardendo entre meus dedos marcava um ritmo
interno, um sinal de que a cena era minha. A cinza pendia, longa e frágil,
tremendo, prestes a cair.
Aproximei-me o suficiente para
sentir o calor de sua pele no mínimo espaço entre nós. Seu cheiro invadiu
minhas narinas. Suávamos sob o sol de fim de inverno que entrava pela janela.
Com o cigarro entre os dedos,
percorri devagar o contorno do seu ombro. Não era uma carícia explícita, mas um
toque que afirmava domínio. O cigarro, quase no fim, já estava quente demais
para ser segurado, mas eu o mantinha ali, deixando que a fumaça se infiltrasse
em sua respiração. Ted engoliu em seco.
Inclinei o pescoço para trás e
soprei a fumaça em direção ao teto. Deixei a bituca cair no chão e, então,
empurrei-o sobre a cama, assumindo o controle com uma naturalidade que me
surpreendeu. Havia algo de poderoso na forma como ele me olhava; eu me transformara
numa criatura mítica que acabara de se materializar em seu quarto.
Ainda com o sabor do cigarro nos
lábios, beijei-o numa tomada de posse.
Sentada de joelhos sobre Ted,
acendi outro cigarro. Com uma mão segurava o cigarro; com a outra, desabotoei o
jeans dele. Ele estava pasmo, entregue. Tirei meu vestido. Fumava devagar,
deixando a fumaça escapar entre os lábios enquanto meus dedos desciam pelo seu
pescoço, pela linha do torso.
Passei a ponta fresca do cigarro
pelos meus lábios antes de beijá-lo de novo. Tracei círculos de fumaça sobre
seu peito nu e, depois, o mordi suavemente. Deixei a cinza cair, com um
descuido calculado, no chão ao lado da cama. Ted apenas respirava, ofegante,
hipnotizado pela autoridade daquela mulher que fumava e o possuía.

😲 A parte que vc sopra a fumaça no rosto dele antes de beijar. O Ted não teve chance nenhuma kkkk
ResponderExcluirO jeito q vc usa o cigarro pra dominar a situação é incrivel. essa coisa da cinza "tremendo" antes de cair me deu um gatilho kkkkk. Vc é mto poderosa Joyce, o Ted devia estar no paraíso e nem sabia.
ResponderExcluirVc escreve mto bem! Adorei o detalhe da biblioteca e depois o contraste com o cheiro da fumaça. Me identifiquei mto pq tbm acho q o cigarro traz uma autoridade q pouca gente entende. Vc fumando de joelhos em cima dele... pqp... cena de filme. concerteza o melhor relato do blog ate agr.
ResponderExcluirJoyce do céu!! kkkkk Imagino a cara do coitado do Ted sem entender nada, só aceitando o destino. O fetiche em si é ótimo, mas a sua confiança é o que mais vicia na leitura. 'Criatura mítica' definiu bem. Esperando o próximo ansiosa!!!
ResponderExcluirachei mto bom o lance do suor no fim de inverno e o gosto do cigarro no beijo. mto sensual sem ser vulgar, sabe? vc tem um dominio da narrativa (e do Ted kkk) que é raro de ver. parabens joice!
ResponderExcluirO detalhe de vc passando a ponta do cigarro nos labios antes de beijar ele de novo fikei sem ar kkkk
ResponderExcluirÉ sobre assumir o próprio corpo num momento em que a gente normalmente se esconde. Me reconheci muito nessa necessidade de controlar a cena pra não desabar. O controle, o olhar dele, o cigarro como extensão do corpo, tudo isso me fez pensar em coisas que eu nunca coloquei em palavras.
ResponderExcluirTem algo quase ritualístico na maneira como você escreve o cigarro. Não como vício, mas como marcador de tempo, de domínio, de decisão. Nunca tinha pensado assim.
ResponderExcluir