Ted insistia para que eu não me
preocupasse. Repetia, como um mantra, que daríamos um jeito, que eu já tinha
passado da idade de viver sob aquela tirania. As frases vinham suaves, mas
escondiam uma pressa: precisava encontrar uma saída para mim antes que o
relógio o chamasse de volta ao seu próprio mundo.
Foi quando ele se lembrou do
hotel. Como ele já dormiria perto do trabalho no dia seguinte, o plano se
formou: eu passaria aquela noite lá e ele assumiria a reserva quando chegasse.
Era um arranjo precário, um paliativo de apenas quarenta e oito horas, mas o único ao
nosso alcance.
Eu não tinha sequer uma escova de
dentes ou uma muda de roupa.
Com uma determinação prática que
contrastava com o meu estado de choque, Ted me levou ao centro da cidade, que
àquela hora já começava a se esvaziar.
O mês estava no final, e Ted já
tinha esgotado todo o salário. Ele nunca foi bom com dinheiro. Estávamos
contando com o cheque especial, que já era pouco e estava perigosamente perto
do limite.
Entramos numa loja de
departamentos, e ele, com um olhar de urgência, comprou o mínimo necessário: um
kit de higiene pessoal, uma camiseta simples para servir de pijama e algumas
roupas íntimas. Cada item colocado no carrinho era um lembrete humilhante da
minha completa dependência.
Com as compras feitas, ele me
levou correndo para o ponto de ônibus. O último do dia se aproximava, e eu
precisava pegá-lo para chegar ao hotel. O crepúsculo parecia engolir tudo em
volta: prédios, conversas, olhares. Disse algumas palavras de despedida que mal
fixei na memória; só percebi o toque rápido da mão dele nas minhas costas,
empurrando-me suavemente para a porta.
Pela janela suja, eu o vi
acenando, seu rosto diminuindo até sumir na curva. Sentei-me sozinha no banco,
o saco plástico com os poucos suprimentos no colo, olhando para a cidade escura
que passava do lado de fora. O único plano era sobreviver àquela noite.

A imagem de você no ônibus, apenas com aquela sacola plástica e a incerteza do amanhã, é muito poderosa.
ResponderExcluir"Intressante" essa "determinação prática" do Ted.
ResponderExcluirO que mais me chamou atenção foi a sua percepção da dependência através daqueles itens básicos no carrinho.
ResponderExcluir"O único plano era sobreviver àquela noite"
ResponderExcluir😢😢😢😢
ResponderExcluirFiquei pensando em como deve ser chegar num hotel sem nada, sem plano, só tentando “sobreviver à noite”. Dá um medo só de imaginar.
ResponderExcluirJoyce, você escreve dependência emocional e material de um jeito muito honesto. Sem esconder a humilhação que sentiu.
ResponderExcluirEu já peguei ônibus chorando à noite. A cidade passando escura pela janela é uma sensação muito específica de estar perdido.
ResponderExcluirPor isso eu escondo dos meus pais
ResponderExcluirA sensação de desamparo que você transmite é avassaladora Não ter nem uma escova de dentes, contar centavos no cheque especial, a pressa de Ted parece que o mundo inteiro não queria vc
ResponderExcluiro kit de higiene humilhante, a camiseta de pijama, o olhar de urgência voca estava tão sozinha naquele ônibus
ResponderExcluirNão sei se amo ou odeio o Ted
ResponderExcluir