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Cai o Pano (32)

Ted insistia para que eu não me preocupasse. Repetia, como um mantra, que daríamos um jeito, que eu já tinha passado da idade de viver sob aquela tirania. As frases vinham suaves, mas escondiam uma pressa: precisava encontrar uma saída para mim antes que o relógio o chamasse de volta ao seu próprio mundo.

Foi quando ele se lembrou do hotel. Como ele já dormiria perto do trabalho no dia seguinte, o plano se formou: eu passaria aquela noite lá e ele assumiria a reserva quando chegasse. Era um arranjo precário, um paliativo de apenas quarenta e oito horas, mas o único ao nosso alcance.

Eu não tinha sequer uma escova de dentes ou uma muda de roupa.

Com uma determinação prática que contrastava com o meu estado de choque, Ted me levou ao centro da cidade, que àquela hora já começava a se esvaziar.

O mês estava no final, e Ted já tinha esgotado todo o salário. Ele nunca foi bom com dinheiro. Estávamos contando com o cheque especial, que já era pouco e estava perigosamente perto do limite.

Entramos numa loja de departamentos, e ele, com um olhar de urgência, comprou o mínimo necessário: um kit de higiene pessoal, uma camiseta simples para servir de pijama e algumas roupas íntimas. Cada item colocado no carrinho era um lembrete humilhante da minha completa dependência.

Com as compras feitas, ele me levou correndo para o ponto de ônibus. O último do dia se aproximava, e eu precisava pegá-lo para chegar ao hotel. O crepúsculo parecia engolir tudo em volta: prédios, conversas, olhares. Disse algumas palavras de despedida que mal fixei na memória; só percebi o toque rápido da mão dele nas minhas costas, empurrando-me suavemente para a porta.

Pela janela suja, eu o vi acenando, seu rosto diminuindo até sumir na curva. Sentei-me sozinha no banco, o saco plástico com os poucos suprimentos no colo, olhando para a cidade escura que passava do lado de fora. O único plano era sobreviver àquela noite.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. A imagem de você no ônibus, apenas com aquela sacola plástica e a incerteza do amanhã, é muito poderosa.

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  2. "Intressante" essa "determinação prática" do Ted.

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  3. O que mais me chamou atenção foi a sua percepção da dependência através daqueles itens básicos no carrinho.

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  4. "O único plano era sobreviver àquela noite"

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  5. Fiquei pensando em como deve ser chegar num hotel sem nada, sem plano, só tentando “sobreviver à noite”. Dá um medo só de imaginar.

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  6. Joyce, você escreve dependência emocional e material de um jeito muito honesto. Sem esconder a humilhação que sentiu.

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  7. Eu já peguei ônibus chorando à noite. A cidade passando escura pela janela é uma sensação muito específica de estar perdido.

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  8. Por isso eu escondo dos meus pais

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  9. A sensação de desamparo que você transmite é avassaladora Não ter nem uma escova de dentes, contar centavos no cheque especial, a pressa de Ted parece que o mundo inteiro não queria vc

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  10. o kit de higiene humilhante, a camiseta de pijama, o olhar de urgência voca estava tão sozinha naquele ônibus

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  11. Não sei se amo ou odeio o Ted

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