Pular para o conteúdo principal

Cai o Pano (34 - Final)

Devo ter ficado parada mais tempo do que imaginei. O telefone pesava, frio, na minha mão. Fiquei observando a tela escura até que meus dedos começaram a discar o número da minha mãe. O polegar pairou sobre o botão verde. Esperei pelo impulso que nunca veio. Apaguei tudo, dígito por dígito.

Deixei o telefone no criado-mudo. A tela apagou. Sem emprego, sem casa, sem família. O desalento vinha através do resquício amargo do tabaco. Percebi, então, que cada lembrança daquela vida com Ted era um gesto emprestado. Um prazer clandestino.

Fui ao banheiro. O cubículo nem espelho tinha. Lavei as mãos, mas a sujeira persistia na pele. Voltei ao quarto e me deitei; o colchão cedeu. Questionei se seria forte o bastante para o que quer que viesse. Não houve resposta. Senti, pela primeira vez, que talvez não houvesse retorno. O plano de negação havia falhado; agora só restava a espera.

O maço estava no chão, mas não senti vontade de fumar. Não queria mais fumar. Deitei-me de lado e fiquei observando a parede descascada.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. É devastador quando quem deveria ser nosso porto seguro vira as costas no momento em que a gente mais precisa. Me deu uma vontade enorme de te dar um abraço naquela escada do hotel.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada pelo carinho, Bia. Naquele momento, o frio da escada parecia entrar nos ossos.

      Excluir
  2. Ted pra mim é mto aquele tipo de cara q é bom pra diversão, mas na hora q o caos vem ele simplesmente trava kkkk. Esse riso nervoso dele na cozinha me deu foi ranço real ele tentando racionalizar uma situação q era 100% emocional. Vc tava no limite e o cara preocupado com chama a Joyce pra mim aff nada a ver

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Niguem é perfeito, não foi fácil pra ele também. Aprendi que agente não pode exigir nada de alguem, apenas aceitar o melhor que ela tem a oferecer naquele momento. Agente fez o que pode, não o ideal.

      Excluir
  3. a cena do quebra-cabeça na parede com a fumaça do cigarro e o suor mas o q me quebrou msm foi o detalhe do papelão na porta do hotel. é ali q a ficha da vida real cai né?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O interessante é que não era algo recente; a mulher simplesmente não consertava o vidro. O difícil era aquele lugar ser minha única saída; só me sobrou isso. O Ted contou que viu quando o vidro quebrou: a dona do hotel costumava levar viciados para dormir com ela e, em uma noite, um deles apareceu de madrugada. Como ela não o deixou entrar, ele deu um soco e quebrou o vidro.

      Excluir
  4. A solidão de estar só com a roupa do corpo e uma sacola de farmácia. Isso dói pra quem lê. A gente começa o texto achando que é um conto sobre desejo e termina num drama existencial profundo. A frase "eu não era uma pessoa; era apenas mais um corpo encaixado temporariamente" é de uma força absurda.

    ResponderExcluir
  5. O plano de negação falhou e só restou a espera. Às vezes a vida é isso, um quarto abafado e um cinzeiro vazio.

    ResponderExcluir
  6. A cena final no quarto do hotel me deixou com uma sensação física de vazio

    ResponderExcluir
  7. A ausência de vontade de fumar no último parágrafo diz mais sobre o seu estado do que qualquer explicação psicológica. Quando a mãe aparece na porta, senti um nó no estômago. Mas nada me preparou para o hotel. Aquela descrição do papelão no vidro e da recepcionista… parece que o mundo inteiro tinha desestiu de você ao mesmo tempo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É isso, Anna. Quando até o cigarro perde o sentido, é porque a alma está exausta.

      Excluir
  8. Até então existia desejo descoberta e poder. No hotel só resta consequência.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Prazer...

Meu nome é Joyce (pelo menos por aqui rsrsrs). Simples assim. Sem segredos no nome, embora eu os tenha de sobra na alma. Tenho entre 30 e 40 anos, e um currículo impecável em todas as áreas que não envolvam vida social. Até os 25 nunca namorei. Nunca fui popular. Nunca fui o tipo de mulher que alguém olha duas vezes na rua e, sinceramente, por muito tempo achei que isso era uma virtude. Fui criada numa família onde aparência valia mais que afeto, e onde ser uma "boa moça" era o destino final, não o ponto de partida. Cresci achando que desejo era uma espécie de doença e que o silêncio era a linguagem mais segura. E talvez tenha sido mesmo. Pelo menos até eu conhecer Ted. Mas não quero parecer trágica. Trágico é o que nunca muda. E eu, bom, eu mudei. Ou estou tentando. É por isso que resolvi contar essa história. Porque às vezes é preciso escrever para entender. E às vezes é preciso acender o primeiro cigarro para, enfim, respirar. [Essa foi a primeira foto que tirei fumando,...

O Dia em que Fumei Pela Primeira Vez (7)

Na volta para casa, depois do almoço, porque na sexta só trabalhávamos pela manhã, passei mais uma vez em frente à tabacaria. Parei por mais tempo na vitrine. É só um maço , pensei. Não significa que vou virar fumante. É só... uma experiência . Mas não entrei. Não ainda . Dei uma volta no quarteirão. A ansiedade aumentava a cada passo, até que, sem nem perceber, meus pés me levaram de volta até a porta da loja. Parei por apenas alguns segundos, respirei fundo e entrei. O coração batia como se eu estivesse prestes a cometer um crime. Lá dentro, o cheiro de tabaco e papel, que eu esperava detestar, me trouxe um estranho conforto. O homem no balcão me olhou com curiosidade discreta. "Boa tarde. Posso ajudá-la?" " Marlboro Light", respondi, com uma firmeza que me surpreendeu. "Maço comum ou carteira?" Não fazia ideia da diferença. "Comum", arrisquei. "Vai precisar de isqueiro?" Isqueiro. Como não pensei nisso? "Sim, por fav...

Bem-vindos ao Novo Lar do Smoking Fetish no Brasil!

 É com imensa satisfação que inauguramos este espaço dedicado a todos os entusiastas e curiosos do smoking fetish no Brasil! Há muito tempo, percebemos uma lacuna na comunidade: o antigo blog "smokingfetishbrasil", embora tenha sido um ponto de encontro importante, foi infelizmente abandonado há anos. Comentários se acumularam, ultrapassando a marca dos 500 em muitas postagens, transformando a discussão em um emaranhado difícil de seguir e participar. Pensando nisso, criamos este blog com um propósito claro: facilitar a reunião e a troca de ideias entre as pessoas . Queremos que este seja um ambiente novo e vibrante onde todos possam se sentir à vontade para compartilhar suas perspectivas, discutir sobre o tema e se conectar com outros que compartilham esse interesse. Nosso objetivo é proporcionar uma plataforma intuitiva e dinâmica, onde os comentários sejam organizados e as conversas fluam naturalmente. Chega de se perder em centenas de respostas; aqui, a interação será si...