Devo ter ficado parada mais tempo
do que imaginei. O telefone pesava, frio, na
minha mão. Fiquei observando a tela escura até que meus dedos começaram a
discar o número da minha mãe. O polegar pairou sobre o botão verde. Esperei
pelo impulso que nunca veio. Apaguei tudo, dígito por dígito.
Deixei o telefone no criado-mudo.
A tela apagou. Sem emprego, sem casa, sem família. O desalento vinha através do
resquício amargo do tabaco. Percebi, então, que cada lembrança daquela vida com
Ted era um gesto emprestado. Um prazer clandestino.
Fui ao banheiro. O cubículo nem
espelho tinha. Lavei as mãos, mas a sujeira persistia na pele. Voltei ao quarto
e me deitei; o colchão cedeu. Questionei se seria forte o bastante para o que
quer que viesse. Não houve resposta. Senti, pela primeira vez, que talvez não
houvesse retorno. O plano de negação havia falhado; agora só restava a espera.
O maço estava no chão, mas não
senti vontade de fumar. Não queria mais fumar. Deitei-me de lado e fiquei
observando a parede descascada.

É devastador quando quem deveria ser nosso porto seguro vira as costas no momento em que a gente mais precisa. Me deu uma vontade enorme de te dar um abraço naquela escada do hotel.
ResponderExcluirObrigada pelo carinho, Bia. Naquele momento, o frio da escada parecia entrar nos ossos.
ExcluirTed pra mim é mto aquele tipo de cara q é bom pra diversão, mas na hora q o caos vem ele simplesmente trava kkkk. Esse riso nervoso dele na cozinha me deu foi ranço real ele tentando racionalizar uma situação q era 100% emocional. Vc tava no limite e o cara preocupado com chama a Joyce pra mim aff nada a ver
ResponderExcluirNiguem é perfeito, não foi fácil pra ele também. Aprendi que agente não pode exigir nada de alguem, apenas aceitar o melhor que ela tem a oferecer naquele momento. Agente fez o que pode, não o ideal.
Excluira cena do quebra-cabeça na parede com a fumaça do cigarro e o suor mas o q me quebrou msm foi o detalhe do papelão na porta do hotel. é ali q a ficha da vida real cai né?
ResponderExcluirO interessante é que não era algo recente; a mulher simplesmente não consertava o vidro. O difícil era aquele lugar ser minha única saída; só me sobrou isso. O Ted contou que viu quando o vidro quebrou: a dona do hotel costumava levar viciados para dormir com ela e, em uma noite, um deles apareceu de madrugada. Como ela não o deixou entrar, ele deu um soco e quebrou o vidro.
ExcluirA solidão de estar só com a roupa do corpo e uma sacola de farmácia. Isso dói pra quem lê. A gente começa o texto achando que é um conto sobre desejo e termina num drama existencial profundo. A frase "eu não era uma pessoa; era apenas mais um corpo encaixado temporariamente" é de uma força absurda.
ResponderExcluirNão foi facil
ExcluirO plano de negação falhou e só restou a espera. Às vezes a vida é isso, um quarto abafado e um cinzeiro vazio.
ResponderExcluirpois é
ExcluirA cena final no quarto do hotel me deixou com uma sensação física de vazio
ResponderExcluirexatamente
ExcluirA ausência de vontade de fumar no último parágrafo diz mais sobre o seu estado do que qualquer explicação psicológica. Quando a mãe aparece na porta, senti um nó no estômago. Mas nada me preparou para o hotel. Aquela descrição do papelão no vidro e da recepcionista… parece que o mundo inteiro tinha desestiu de você ao mesmo tempo.
ResponderExcluirÉ isso, Anna. Quando até o cigarro perde o sentido, é porque a alma está exausta.
ExcluirAté então existia desejo descoberta e poder. No hotel só resta consequência.
ResponderExcluirA conta sempre chega
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