Ted chegou na hora do almoço.
Três batidas na porta. Eu ainda estava deitada, o mesmo cheiro do dia anterior.
Nenhuma vontade de levantar. Ele disse que ia me levar para almoçar, um
restaurante ali perto, comida de verdade. Hesitei. Abri a porta e ele entrou,
trazendo consigo o odor de suor e trabalho. Não sentia fome, apenas vazio.
Ele insistiu, calmo, sem pressa. Levantei devagar, passei água no rosto,
amarrei o cabelo.
Saímos em silêncio. O sol
queimava as retinas. Pessoas passavam rápidas, e eu, o contrário de tudo,
apenas um corpo solto no meio da pressa alheia.
O restaurante era simples. Mesas
de fórmica, paredes de vidro, e, ao redor, um jardim calmo e sem flores.
Sentamos perto da janela. Arroz, feijão, macarrão, bife, batata frita. Eu não
achava palavras. Peguei o garfo, mas não consegui levá-lo à boca. Ele disse que
eu precisava comer, e eu concordei, mas não toquei no prato. Ele mastigou devagar,
atento ao que fazia. Percebi que ele não sabia o que dizer; estava ali por
achar que devia, mas não sabia o que devia.
Prometeu que as coisas iam
melhorar. Não respondi. Ele coçou a nuca, um gesto meio menino, meio
desajeitado, e o silêncio se esticou entre nós. Confessou, então, o desejo de
resolver tudo: ter dinheiro para me tirar dali, ou me abrigar em sua casa. Mas
não podia. Os pais não aceitariam, não entenderiam.
Fez uma pausa e admitiu que não
tinha todas as respostas. Mesmo assim, tentou me convencer de uma maneira truncada, que a dor ensina
lições que o conforto jamais seria capaz de mostrar, e que, quando o mundo
parece vazio, a única saída é dar o próximo passo. Me lembro de questionar qual seria o próximo passo.
"Comer", foi sua resposta.
Olhei para o prato, peguei o
garfo. Mastiguei sem sentir o sabor, e engoli. Ele soltou minha mão,
recostou-se e sorriu. Na saída, tocou meu ombro. Pagou a conta. Voltamos
andando devagar.
Ted precisou retornar ao
trabalho. Vi-o se afastar pela calçada, suas costas largas sumindo aos poucos,
a camiseta colada no corpo pelo suor, até que ele desapareceu na esquina.
Fiquei ali, parada, olhando para o nada.
Subi as escadas do hotel em
direção ao quarto. A chave rodou na fechadura e o quarto estava do mesmo jeito
que eu deixara para trás. Fechei a porta. Sentei na beira da cama e olhei para
o teto. Deitei. O
colchão afundou com o meu peso. O aroma do tecido, me levou de volta a minha
casa, a um quarto com janela e cortinas limpas.
Quis levantar. Quis pedir ajuda.
Mas não havia ninguém.
A noite foi chegando devagar,
escorrendo pelas paredes. Acendi o abajur e a lâmpada piscou antes de se firmar
numa luz amarela e fraca. Desejei gritar por socorro, mas permaneci deitada.

“O sol queimava as retinas. Pessoas passavam rápidas, e eu, o contrário de tudo.”
ResponderExcluirÉ muito forte quando a gente se sente fora do tempo, fora do ritmo do mundo.
Esse vazio que você descreve, de estar no meio do movimento e não conseguir se mexer. Eu já senti isso.
ResponderExcluirEsse texto me fez lembrar de uma época em que eu também não conseguia comer. A comida no prato, o garfo na mão, e nada. É bom saber que não estamos sozinhas, mesmo que na época a gente ache que sim.