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Mentor Imperfeito (2)

Ted chegou na hora do almoço. Três batidas na porta. Eu ainda estava deitada, o mesmo cheiro do dia anterior. Nenhuma vontade de levantar. Ele disse que ia me levar para almoçar, um restaurante ali perto, comida de verdade. Hesitei. Abri a porta e ele entrou, trazendo consigo o odor de suor e trabalho. Não sentia fome, apenas vazio. Ele insistiu, calmo, sem pressa. Levantei devagar, passei água no rosto, amarrei o cabelo.

Saímos em silêncio. O sol queimava as retinas. Pessoas passavam rápidas, e eu, o contrário de tudo, apenas um corpo solto no meio da pressa alheia.

O restaurante era simples. Mesas de fórmica, paredes de vidro, e, ao redor, um jardim calmo e sem flores. Sentamos perto da janela. Arroz, feijão, macarrão, bife, batata frita. Eu não achava palavras. Peguei o garfo, mas não consegui levá-lo à boca. Ele disse que eu precisava comer, e eu concordei, mas não toquei no prato. Ele mastigou devagar, atento ao que fazia. Percebi que ele não sabia o que dizer; estava ali por achar que devia, mas não sabia o que devia.

Prometeu que as coisas iam melhorar. Não respondi. Ele coçou a nuca, um gesto meio menino, meio desajeitado, e o silêncio se esticou entre nós. Confessou, então, o desejo de resolver tudo: ter dinheiro para me tirar dali, ou me abrigar em sua casa. Mas não podia. Os pais não aceitariam, não entenderiam.

Fez uma pausa e admitiu que não tinha todas as respostas. Mesmo assim, tentou me convencer de uma maneira truncada, que a dor ensina lições que o conforto jamais seria capaz de mostrar, e que, quando o mundo parece vazio, a única saída é dar o próximo passo. Me lembro de questionar qual seria o próximo passo. "Comer", foi sua resposta.

Olhei para o prato, peguei o garfo. Mastiguei sem sentir o sabor, e engoli. Ele soltou minha mão, recostou-se e sorriu. Na saída, tocou meu ombro. Pagou a conta. Voltamos andando devagar.

Ted precisou retornar ao trabalho. Vi-o se afastar pela calçada, suas costas largas sumindo aos poucos, a camiseta colada no corpo pelo suor, até que ele desapareceu na esquina. Fiquei ali, parada, olhando para o nada.

Subi as escadas do hotel em direção ao quarto. A chave rodou na fechadura e o quarto estava do mesmo jeito que eu deixara para trás. Fechei a porta. Sentei na beira da cama e olhei para o teto. Deitei. O colchão afundou com o meu peso. O aroma do tecido, me levou de volta a minha casa, a um quarto com janela e cortinas limpas.

Quis levantar. Quis pedir ajuda. Mas não havia ninguém.

A noite foi chegando devagar, escorrendo pelas paredes. Acendi o abajur e a lâmpada piscou antes de se firmar numa luz amarela e fraca. Desejei gritar por socorro, mas permaneci deitada.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. “O sol queimava as retinas. Pessoas passavam rápidas, e eu, o contrário de tudo.”
    É muito forte quando a gente se sente fora do tempo, fora do ritmo do mundo.

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  2. Esse vazio que você descreve, de estar no meio do movimento e não conseguir se mexer. Eu já senti isso.
    Esse texto me fez lembrar de uma época em que eu também não conseguia comer. A comida no prato, o garfo na mão, e nada. É bom saber que não estamos sozinhas, mesmo que na época a gente ache que sim.

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