Respirei fundo. Digitei os
números um a um. Quando terminei, fiquei olhando para a tela, o polegar
pairando sobre o botão de ligar. Era só apertar. Só isso. Mas parecia que tudo
dependia daquele gesto.
Encostei o telefone no ouvido e apertei.
Toques. Um, dois, três. O som repetido cortava o silêncio do quarto. Até que
alguém atendeu.
A voz era rouca, cansada. Era
minha tia. Falei meu nome. Ela demorou para responder, acredito que tentava me
localizar na memória. Então perguntou o que havia acontecido.
Contei tudo. Que estava sem casa,
sem documentos, sem nada. Que precisava de ajuda.
Do outro lado da linha, não houve
silêncio. Imediatamente, ela disse que eu podia ir para a casa dela.
Não senti alívio, mas meus ombros
relaxaram com uma possibilidade pequena e frágil de que talvez houvesse um
caminho.
Agradeci. Desliguei. Respirei.
Observei o quarto à minha volta. Após alguns segundos peguei o maço do Marlboro e o senti na palma da mão. Tirei um cigarro, o examinei, pensei em guardá-lo; acendi. O primeiro em todo o dia. A chama iluminou a meia-luz do quarto e, por um instante, a brasa era o único ponto vivo do mundo. Traguei devagar. O sabor era o mesmo: amargo, íntimo, necessário. Fumaça e respiração se confundiam.
[Esse ano, decidi não apenas admirar a commedia dell'arte, mas vestir a fantasia. ✨] - Joyce

A brasa era o único ponto vivo do mundo :)
ResponderExcluirTraguei devagar. O sabor era o mesmo: amargo, íntimo, necessário. Fumaça e respiração se confundiam. ❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️
ResponderExcluirA escolha do cigarro no final foi o fechamento perfeito. O Marlboro não é apenas um vício ali, parece ser a única constante em um mundo que desmoronou. "A brasa era o único ponto vivo do mundo" que imagem poderosa. Parabéns pela escrita.
ResponderExcluirFumaça e respiração se confundindo... Que final. Ansioso pelo próximo capítulo dessa jornada.
ResponderExcluirA descrição da brasa sendo o único ponto vivo no quarto... uau. Consegui visualizar perfeitamente o brilho iluminando o rosto no escuro. Nada como um Marlboro para acalmar os nervos depois de um dia caótico. O amargo dele é viciante.
ResponderExcluirAmei como você descreveu o polegar pairando sobre o botão antes de finalmente se render ao prazer do fumo. A fumaça se confundindo com a respiração é uma das imagens mais sensuais que já li por aqui.
ResponderExcluirDá para sentir o prazer da primeira tragada do dia através do texto. Aquela fumaça densa descendo e os ombros relaxando o fetiche puro é exatamente essa entrega ao cigarro quando tudo em volta está desmoronando.
ResponderExcluirO contraste da meia-luz com o fogo do isqueiro sempre me pega.
ResponderExcluirA parte em que você examina o cigarro antes de acender. :)
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