Pular para o conteúdo principal

Mentor Imperfeito (4)

Respirei fundo. Digitei os números um a um. Quando terminei, fiquei olhando para a tela, o polegar pairando sobre o botão de ligar. Era só apertar. Só isso. Mas parecia que tudo dependia daquele gesto.

Encostei o telefone no ouvido e apertei. Toques. Um, dois, três. O som repetido cortava o silêncio do quarto. Até que alguém atendeu.

A voz era rouca, cansada. Era minha tia. Falei meu nome. Ela demorou para responder, acredito que tentava me localizar na memória. Então perguntou o que havia acontecido.

Contei tudo. Que estava sem casa, sem documentos, sem nada. Que precisava de ajuda.

Do outro lado da linha, não houve silêncio. Imediatamente, ela disse que eu podia ir para a casa dela.

Não senti alívio, mas meus ombros relaxaram com uma possibilidade pequena e frágil de que talvez houvesse um caminho.

Agradeci. Desliguei. Respirei.

Observei o quarto à minha volta. Após alguns segundos peguei o maço do Marlboro e o senti na palma da mão. Tirei um cigarro, o examinei, pensei em guardá-lo; acendi. O primeiro em todo o dia. A chama iluminou a meia-luz do quarto e, por um instante, a brasa era o único ponto vivo do mundo. Traguei devagar. O sabor era o mesmo: amargo, íntimo, necessário. Fumaça e respiração se confundiam. 

[Esse ano, decidi não apenas admirar a commedia dell'arte, mas vestir a fantasia. ✨] - Joyce

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. A brasa era o único ponto vivo do mundo :)

    ResponderExcluir
  2. Traguei devagar. O sabor era o mesmo: amargo, íntimo, necessário. Fumaça e respiração se confundiam. ❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️

    ResponderExcluir
  3. A escolha do cigarro no final foi o fechamento perfeito. O Marlboro não é apenas um vício ali, parece ser a única constante em um mundo que desmoronou. "A brasa era o único ponto vivo do mundo" que imagem poderosa. Parabéns pela escrita.

    ResponderExcluir
  4. Fumaça e respiração se confundindo... Que final. Ansioso pelo próximo capítulo dessa jornada.

    ResponderExcluir
  5. A descrição da brasa sendo o único ponto vivo no quarto... uau. Consegui visualizar perfeitamente o brilho iluminando o rosto no escuro. Nada como um Marlboro para acalmar os nervos depois de um dia caótico. O amargo dele é viciante.

    ResponderExcluir
  6. Amei como você descreveu o polegar pairando sobre o botão antes de finalmente se render ao prazer do fumo. A fumaça se confundindo com a respiração é uma das imagens mais sensuais que já li por aqui.

    ResponderExcluir
  7. Dá para sentir o prazer da primeira tragada do dia através do texto. Aquela fumaça densa descendo e os ombros relaxando o fetiche puro é exatamente essa entrega ao cigarro quando tudo em volta está desmoronando.

    ResponderExcluir
  8. O contraste da meia-luz com o fogo do isqueiro sempre me pega.

    ResponderExcluir
  9. A parte em que você examina o cigarro antes de acender. :)

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Prazer...

Meu nome é Joyce (pelo menos por aqui rsrsrs). Simples assim. Sem segredos no nome, embora eu os tenha de sobra na alma. Tenho entre 30 e 40 anos, e um currículo impecável em todas as áreas que não envolvam vida social. Até os 25 nunca namorei. Nunca fui popular. Nunca fui o tipo de mulher que alguém olha duas vezes na rua e, sinceramente, por muito tempo achei que isso era uma virtude. Fui criada numa família onde aparência valia mais que afeto, e onde ser uma "boa moça" era o destino final, não o ponto de partida. Cresci achando que desejo era uma espécie de doença e que o silêncio era a linguagem mais segura. E talvez tenha sido mesmo. Pelo menos até eu conhecer Ted. Mas não quero parecer trágica. Trágico é o que nunca muda. E eu, bom, eu mudei. Ou estou tentando. É por isso que resolvi contar essa história. Porque às vezes é preciso escrever para entender. E às vezes é preciso acender o primeiro cigarro para, enfim, respirar. [Essa foi a primeira foto que tirei fumando,...

O Dia em que Fumei Pela Primeira Vez (7)

Na volta para casa, depois do almoço, porque na sexta só trabalhávamos pela manhã, passei mais uma vez em frente à tabacaria. Parei por mais tempo na vitrine. É só um maço , pensei. Não significa que vou virar fumante. É só... uma experiência . Mas não entrei. Não ainda . Dei uma volta no quarteirão. A ansiedade aumentava a cada passo, até que, sem nem perceber, meus pés me levaram de volta até a porta da loja. Parei por apenas alguns segundos, respirei fundo e entrei. O coração batia como se eu estivesse prestes a cometer um crime. Lá dentro, o cheiro de tabaco e papel, que eu esperava detestar, me trouxe um estranho conforto. O homem no balcão me olhou com curiosidade discreta. "Boa tarde. Posso ajudá-la?" " Marlboro Light", respondi, com uma firmeza que me surpreendeu. "Maço comum ou carteira?" Não fazia ideia da diferença. "Comum", arrisquei. "Vai precisar de isqueiro?" Isqueiro. Como não pensei nisso? "Sim, por fav...

Bem-vindos ao Novo Lar do Smoking Fetish no Brasil!

 É com imensa satisfação que inauguramos este espaço dedicado a todos os entusiastas e curiosos do smoking fetish no Brasil! Há muito tempo, percebemos uma lacuna na comunidade: o antigo blog "smokingfetishbrasil", embora tenha sido um ponto de encontro importante, foi infelizmente abandonado há anos. Comentários se acumularam, ultrapassando a marca dos 500 em muitas postagens, transformando a discussão em um emaranhado difícil de seguir e participar. Pensando nisso, criamos este blog com um propósito claro: facilitar a reunião e a troca de ideias entre as pessoas . Queremos que este seja um ambiente novo e vibrante onde todos possam se sentir à vontade para compartilhar suas perspectivas, discutir sobre o tema e se conectar com outros que compartilham esse interesse. Nosso objetivo é proporcionar uma plataforma intuitiva e dinâmica, onde os comentários sejam organizados e as conversas fluam naturalmente. Chega de se perder em centenas de respostas; aqui, a interação será si...