Pular para o conteúdo principal

Mentor Imperfeito (7)

Acomodei-me no banco traseiro do ônibus. A paisagem passava pelas janelas: postes, pessoas, fachadas. Não tínhamos falado muito antes de subir. Ele comprou minha passagem, e foi só. Tentei respirar fundo, mas o ar prendeu na garganta.

Olhei pela janela. As ruas se repetiam. Pensei na minha tia, na voz dela ao telefone, no que eu diria quando chegasse. Mas as palavras não vinham. A mão esquerda formigava. Abri e fechei os dedos. Nada mudou.

Ted se mexeu. Começou a se levantar. Meu corpo inteiro travou. Ele ia descer. A ideia de ficar sozinha no ônibus me aterrorizou. O peito apertou mais. A visão escureceu nas bordas. Respirei rápido, mas o ar não entrava. Ele me beijou, apertou minha mão, soltou.

Quando percebi, ele já estava de pé, a mochila pendurada num ombro só, caminhando em direção à porta enquanto o ônibus reduzia sua velocidade. O chão sumira. Em queda livre, meu peito explodia em taquicardia. Cada batida martelava contra as costelas. O corpo inteiro sibilava em alerta, cada músculo tensionado. Eu estava prestes a morrer ali mesmo, no banco daquele ônibus.

Levantei-me. Meu corpo se movera sozinho, seguindo Ted pelo corredor. Não era o meu ponto, mas desci. O motorista fechou a porta; o ônibus seguiu sem mim.

Fiquei parada na calçada, o sol batendo direto na cabeça. Ted se virou, me viu. Eu não sabia o que dizer. Não sabia por que tinha descido, só sabia que não podia ter ficado. Ele deu um passo na minha direção, perguntou algo; sua voz chegava abafada. Tentei responder. Os lábios se moveram, mas nenhum som saiu. Tudo girou. Dei um passo para trás, outro para o lado.

Ted segurou meu braço. A mão dele era quente, firme. Eu me agarrei naquilo. As lágrimas vieram. Não chorei. Elas só escorreram, molhando meu rosto, pingando no chão. Não tinha razão para chorar. Mas o corpo chorava mesmo assim.

Desvencilhei-me de seu braço. Havia algo de errado naquele seu olhar, a convicção silenciosa de que eu era frágil e quebrada, alguém que ele precisava consertar. Eu não era nada além de um problema a resolver, uma missão a cumprir, um objeto a ser realocado. Mas isso não era o que eu queria. Muito menos o que eu precisava. Infelizmente, as palavras certas não vieram; só restaram as erradas, duras, tortas. Ele recuou confuso, e eu vi a mágoa estampar seu rosto. Tudo havia saído do controle.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Uma pergunta, estás fotos que você posta, são da época que se passa o fato, ou posteriores, apenas para ilustração?

    ResponderExcluir
  2. São imagens de Inteligência Artificial. Essa foi pelo Gemini. Aquele simbolo na parte inferior direita é a marca do Gemini. Representam várias épocas distintas.

    ResponderExcluir
  3. Joyce do ceu, q agonia que me deu essa parte do onibus!!! Eu ja tive crise de pânico e senti a mesma coisa, parece q o mundo vai acaba e a gente fica sem ar.

    ResponderExcluir
  4. mt bom o texto... so achei q vc foi dura demais com o Ted, o cara parecia q tava tentando ajudar. mas eh foda, cada um sabe onde o calo aperta. a solidao na rodoviaria eh uma das piores sensaçoes q existe. abs.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Prazer...

Meu nome é Joyce (pelo menos por aqui rsrsrs). Simples assim. Sem segredos no nome, embora eu os tenha de sobra na alma. Tenho entre 30 e 40 anos, e um currículo impecável em todas as áreas que não envolvam vida social. Até os 25 nunca namorei. Nunca fui popular. Nunca fui o tipo de mulher que alguém olha duas vezes na rua e, sinceramente, por muito tempo achei que isso era uma virtude. Fui criada numa família onde aparência valia mais que afeto, e onde ser uma "boa moça" era o destino final, não o ponto de partida. Cresci achando que desejo era uma espécie de doença e que o silêncio era a linguagem mais segura. E talvez tenha sido mesmo. Pelo menos até eu conhecer Ted. Mas não quero parecer trágica. Trágico é o que nunca muda. E eu, bom, eu mudei. Ou estou tentando. É por isso que resolvi contar essa história. Porque às vezes é preciso escrever para entender. E às vezes é preciso acender o primeiro cigarro para, enfim, respirar. [Essa foi a primeira foto que tirei fumando,...

O Dia em que Fumei Pela Primeira Vez (7)

Na volta para casa, depois do almoço, porque na sexta só trabalhávamos pela manhã, passei mais uma vez em frente à tabacaria. Parei por mais tempo na vitrine. É só um maço , pensei. Não significa que vou virar fumante. É só... uma experiência . Mas não entrei. Não ainda . Dei uma volta no quarteirão. A ansiedade aumentava a cada passo, até que, sem nem perceber, meus pés me levaram de volta até a porta da loja. Parei por apenas alguns segundos, respirei fundo e entrei. O coração batia como se eu estivesse prestes a cometer um crime. Lá dentro, o cheiro de tabaco e papel, que eu esperava detestar, me trouxe um estranho conforto. O homem no balcão me olhou com curiosidade discreta. "Boa tarde. Posso ajudá-la?" " Marlboro Light", respondi, com uma firmeza que me surpreendeu. "Maço comum ou carteira?" Não fazia ideia da diferença. "Comum", arrisquei. "Vai precisar de isqueiro?" Isqueiro. Como não pensei nisso? "Sim, por fav...

Bem-vindos ao Novo Lar do Smoking Fetish no Brasil!

 É com imensa satisfação que inauguramos este espaço dedicado a todos os entusiastas e curiosos do smoking fetish no Brasil! Há muito tempo, percebemos uma lacuna na comunidade: o antigo blog "smokingfetishbrasil", embora tenha sido um ponto de encontro importante, foi infelizmente abandonado há anos. Comentários se acumularam, ultrapassando a marca dos 500 em muitas postagens, transformando a discussão em um emaranhado difícil de seguir e participar. Pensando nisso, criamos este blog com um propósito claro: facilitar a reunião e a troca de ideias entre as pessoas . Queremos que este seja um ambiente novo e vibrante onde todos possam se sentir à vontade para compartilhar suas perspectivas, discutir sobre o tema e se conectar com outros que compartilham esse interesse. Nosso objetivo é proporcionar uma plataforma intuitiva e dinâmica, onde os comentários sejam organizados e as conversas fluam naturalmente. Chega de se perder em centenas de respostas; aqui, a interação será si...