Ela
surgiu no vão da porta. Mais alta do que eu imaginara. Cabelos curtos, tingidos
de um castanho avermelhado. A blusa larga, a calça jeans desbotada. O cigarro
aceso equilibrado entre os dedos iluminava o rosto por instantes, revelando uma
surpresa atônita que se dissolveu rápido, substituída por algo que eu
reconhecia, e me reconhecia. Os olhos escuros percorriam meu rosto, desciam
pelo meu corpo, voltavam, conferindo cada detalhe com a lembrança que ela
guardava.
Deu
um passo à frente e me puxou para um abraço longo. Senti o peito dela subir e
descer contra o meu. Não soltou. Fiquei ali, rígida primeiro, depois me
rendendo àquela proximidade que eu não sabia receber. Quando enfim me soltou,
murmurou que eu estava igual à minha avó. Uma constatação viva, carregada de
memória. Havia ali um passado que me antecedia, e do qual eu fazia parte sem
entender.
Ela
me conduziu para dentro. A casa tinha uma vitalidade discreta. Luz entrando
pelas janelas, cortinas amarelas meio abertas. Um sofá de tecido marrom, uma
mesinha de centro marcada por xícaras, estantes onde os livros se empilhavam
sem ordem. Pelas paredes, fotografias em molduras diferentes: pessoas sorrindo,
pessoas abraçadas na praia. Pegou uma foto na estante. O filho dela sorria na
imagem, olhos semicerrados pelo sol. Disse que aquele era meu primo. Eu não o
conhecia. Enquanto falava, buscava meu rosto com insistência, procurando ali
algum traço perdido da menina que eu havia sido antes de desaparecer de sua
vida.
Nos
sentamos à mesa. Ela serviu o café. Apagou a bituca no cinzeiro e, sem pausa,
pegou outro. Levou-o aos lábios, acendeu, tragou. Perguntou se eu queria
açúcar. Recusei. Quis saber o que havia acontecido. Olhei para o café nas
minhas mãos. Respirei. Contei. As palavras saíram secas. O relato objetivo de
uma vida alheia.
Ela
permaneceu em silêncio enquanto eu falava. O cigarro descansava entre seus
dedos. A segurança de um gesto antigo, e as cinzas que caiam ao acaso. Cada
tragada parecia ordenar o mundo ao redor. O cheiro madurava o ar. Percebi, com
um estranhamento íntimo, o quanto meu peito se abriu ao reconhecer aquele
gesto. Algo em mim identificou ali uma forma de sobrevivência.

A parte dela dizer que você tá igual à sua avó... 😭
ResponderExcluirÀs vezes, a gente se encontra em ecos do passado que nem sabia que existiam. Um abraço.
ExcluirNossa, o clima da casa dela parece ser tão gostoso! Cortina amarela, livro empilhado bem casa de tia msm kkkk. Mas Joyce, o q exatamente vc contou pra ela? Vc falou do Ted ou so do que aconteceu antes? To curiosa!!!!
ResponderExcluirA curiosidade é um bom sinal, significa que a história está te envolvendo. Obrigada!
ExcluirAdoro como você descreve o ato de fumar não apenas como um vício, mas como um elo entre pessoas e memórias. A maneira como você percebe e se conecta com cada gesto é exatamente o que me fascina no smoking fetish.
ResponderExcluirAnna, fico feliz que você tenha captado essa essência.
ExcluirCada tragada parece carregar uma narrativa própria. O cheiro, o movimento, a contemplação da cinza me identifiquei demais.
ResponderExcluirCaio, é exatamente isso.
ExcluirO texto desperta uma sensação de nostalgia e intimidade que só quem aprecia o smoking fetish consegue compreender. A descrição é lenta, cuidadosa, e cada detalhe do cigarro torna-se um ponto de conexão com a personagem e suas memórias.
ResponderExcluirSua leitura é muito perspicaz. A intenção é justamente essa
ExcluirNão é só o cigarro em si, mas a maneira como ele organiza o mundo ao redor. Essa sensação de ordem e domínio silencioso, mesmo em pequenos gestos, é exatamente o que me atrai nesse fetiche. Perfeito.
ResponderExcluirNão é apenas o ato de fumar, mas a ordem que ele impõe, a pausa que ele cria no caos.
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