No
início da noite, minha tia sugeriu que eu tomasse um banho. Fiquei parada no
batente da porta enquanto ela abria o armário e retirava uma toalha azul, com
um perfume suave de lavanda. Depositou-a sobre a pia, e o tecido felpudo se
acomodou ali.
Abri
a torneira. Deixei a água correr antes de tirar a roupa que vestia há dois
dias. O barulho do chuveiro virou a única coisa concreta naquela casa estranha,
o novo abrigo do meu corpo expulso. Observei o vapor subir, embaçando o espelho
até apagar o meu reflexo. Fiquei diante dele por um instante, na expectativa de
que a ausência da minha imagem me permitisse existir de outro modo.
Despi-me
lentamente, sentindo o ar frio arrepiar a pele, e entrei na água. O calor
envolveu minhas pernas, meu ventre, meu busto, numa tentativa de dissolver a
tensão que se instalara. Redescobria minha própria nudez agora que era a única
proprietária da minha carne. A esponja passou pelo pescoço e desceu pelo colo;
toquei-me com firmeza, confirmando que as terminações nervosas ainda respondiam,
que prazer e dor continuavam sendo possibilidades reais.
Esfreguei
o sabonete nos braços, no peito, na barriga, fazendo espuma com movimentos
circulares. Era diferente do de casa: tinha um perfume mais sóbrio, amadeirado,
adulto. A água escorria pelas coxas quando a dúvida veio: seria eu capaz de
suportar aquilo? Sobreviver era uma habilidade real ou apenas uma fantasia
arrogante? A resposta não foi heroica, foi falta de opção. A inércia da queda
já tinha virado movimento. Agora a equação se resumia a mim por mim mesma, uma
tautologia necessária.
Enxaguei
o cabelo e fiquei mais um tempo parada sob a água quente. Não queria sair.
Deixei a água bater sobre a cabeça. Fechei a torneira.
A
toalha azul era grande o suficiente para me cobrir inteira. Sequei cada parte
com cuidado, entre os dedos dos pés, atrás das orelhas. Percebi que fazia muito
tempo que não me tocava com tanta atenção. A camisola de algodão que minha tia
deixara dobrada na cadeira serviu bem.

Joyce, que coisa linda esse banho. "Proprietária da minha carne" essa frase é poderosa demais.
ResponderExcluir❤️
ExcluirMe emocionei com vc se tocando com cuidado. A gente passa tanto tempo se sentindo um "objeto de doação" que esquece que o corpo é nosso. Se secar com cuidado é um ato de amor proprio gigante. 💙
ResponderExcluir☺️
Excluir"A inercia da queda ja tinha virado movimento". Vc escreve mto bem, Joyce.
ResponderExcluirObrigada
ExcluirEu amo como vc descreve os sentidos o perfume amadeirado, a toalha felpuda. Esse "mim por mim mesma" é assustador.
ResponderExcluirSurgiu do nada
ExcluirVc sentiu q a agua quente levou um pouco da dor? To aqui na torcida pra que sua primeira noite tenha sido tranquila.
ResponderExcluirNa verdade não
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