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Mentor Imperfeito (15)

No início da noite, minha tia sugeriu que eu tomasse um banho. Fiquei parada no batente da porta enquanto ela abria o armário e retirava uma toalha azul, com um perfume suave de lavanda. Depositou-a sobre a pia, e o tecido felpudo se acomodou ali.

Abri a torneira. Deixei a água correr antes de tirar a roupa que vestia há dois dias. O barulho do chuveiro virou a única coisa concreta naquela casa estranha, o novo abrigo do meu corpo expulso. Observei o vapor subir, embaçando o espelho até apagar o meu reflexo. Fiquei diante dele por um instante, na expectativa de que a ausência da minha imagem me permitisse existir de outro modo.

Despi-me lentamente, sentindo o ar frio arrepiar a pele, e entrei na água. O calor envolveu minhas pernas, meu ventre, meu busto, numa tentativa de dissolver a tensão que se instalara. Redescobria minha própria nudez agora que era a única proprietária da minha carne. A esponja passou pelo pescoço e desceu pelo colo; toquei-me com firmeza, confirmando que as terminações nervosas ainda respondiam, que prazer e dor continuavam sendo possibilidades reais.

Esfreguei o sabonete nos braços, no peito, na barriga, fazendo espuma com movimentos circulares. Era diferente do de casa: tinha um perfume mais sóbrio, amadeirado, adulto. A água escorria pelas coxas quando a dúvida veio: seria eu capaz de suportar aquilo? Sobreviver era uma habilidade real ou apenas uma fantasia arrogante? A resposta não foi heroica, foi falta de opção. A inércia da queda já tinha virado movimento. Agora a equação se resumia a mim por mim mesma, uma tautologia necessária.

Enxaguei o cabelo e fiquei mais um tempo parada sob a água quente. Não queria sair. Deixei a água bater sobre a cabeça. Fechei a torneira.

A toalha azul era grande o suficiente para me cobrir inteira. Sequei cada parte com cuidado, entre os dedos dos pés, atrás das orelhas. Percebi que fazia muito tempo que não me tocava com tanta atenção. A camisola de algodão que minha tia deixara dobrada na cadeira serviu bem.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Joyce, que coisa linda esse banho. "Proprietária da minha carne" essa frase é poderosa demais.

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  2. Me emocionei com vc se tocando com cuidado. A gente passa tanto tempo se sentindo um "objeto de doação" que esquece que o corpo é nosso. Se secar com cuidado é um ato de amor proprio gigante. 💙

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  3. "A inercia da queda ja tinha virado movimento". Vc escreve mto bem, Joyce.

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  4. Eu amo como vc descreve os sentidos o perfume amadeirado, a toalha felpuda. Esse "mim por mim mesma" é assustador.

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  5. Vc sentiu q a agua quente levou um pouco da dor? To aqui na torcida pra que sua primeira noite tenha sido tranquila.

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