Caminhei
até o quarto e deitei na cama alheia. Fiquei olhando o teto, ouvindo os sons
que vinham de fora. Vizinhos discutindo em algum apartamento próximo. Um ônibus
passando na rua. O zumbido constante da vida que ignora as tragédias
individuais e segue seu curso indiferente.
Apanhei
o telefone sobre a mesa de cabeceira. Ensaiei mentalmente um pedido de
desculpas por existir do jeito que existia. Pensei em dizer que estava bem, que
tinha encontrado um lugar para ficar. Mas não fiz nada disso. Larguei o
telefone de volta e virei de lado.
Minha
tia bateu à porta com duas pequenas batidas antes de entrar. Trazia lençóis
limpos e os colocou aos pés da cama.
—
Você fez a coisa certa — disse.
Saiu
antes que eu pudesse responder. Fiquei muito tempo olhando para a porta
fechada, repetindo mentalmente aquelas palavras, tentando acreditar nelas.
Quando
a noite lá fora se aquietou, levantei e fui até a janela. O céu urbano era uma
abóbada escura, pontilhada pela luz que vinha dos postes, das janelas, e da lua
pálida, testemunha da insônia e da solidão que pendiam sob os telhados.
Pensei
nas noites que viriam. Na minha tia dormindo no quarto ao lado. Pensei em Ted.
Compreendi que a ruptura era irreversível e que a liberdade tinha o gosto seco
e morno do carvalho queimado, belo e assustador ao mesmo tempo.

"Ensaiei um pedido de desculpas por existir" nossa, Joyce me vi ai
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