Ao
chegar à portaria, parei diante da portinhola de metal, pintada de um
cinza-claro, que dava direto para a calçada movimentada. Era baixa,
inexpressiva. Toquei o interfone. Esperei. Nada. Toquei novamente, desta vez
segurando o botão por mais tempo, insistindo na minha existência. Ao todo,
foram quatro vezes.
A
voz da minha mãe finalmente saiu pela caixa de som, perguntando quem era.
Identifiquei-me e expliquei que precisava subir apenas para pegar meus
documentos, lembrando que ela tinha ficado com minhas chaves no dia em que me
expulsou. A resposta veio rápida e seca, afirmando que não havia nada para mim
ali e dizendo que eu devia ir embora.
O
estalo do desligamento cortou a conversa antes que eu pudesse argumentar. Não
me movi. Apoiei a testa na grade fria do portão e apertei o botão outra vez,
insistindo pela quinta, sexta e sétima vez. O som repetitivo tornava-se um
alarme do meu desespero.
Minha
mãe apareceu. Abriu a porta apenas o suficiente para ocupar o vão com o rosto.
Expliquei que precisava do diploma, da habilitação, da carteira de trabalho,
pois sem aqueles papéis eu não poderia trabalhar nem seguir com a vida. Minha
voz falhava, mas mantive meus olhos fixos nos dela. Ela apenas cruzou os braços
e afirmou que eu havia feito minha escolha.
Ela
começou a fechar a porta. Gritei por ela. Gritei que só queria meus documentos.
Nada. As pessoas que passavam pela calçada aceleravam o passo, desviando o
olhar. Eu era um espetáculo. Uma perturbação da ordem.
Insisti,
implorei que ela me entregasse ao menos minha carteira que continha minha
identidade, mas ela disse não. Perguntei, incrédula: "Como assim
não!". Disse que os documentos eram meus, e ela respondeu que eu devia ter
pensado nisso antes.
Ela
fechou a porta por completo. Vi suas costas se afastando pelas escadas.
Encostei a testa no interfone, sentindo o metal gelado contra a pele. Respirei
fundo, consciente de que não tinha destino sem aqueles papéis. Deslizei pela
parede ao lado da porta até o chão. Fiquei ali sentada, abraçando os joelhos e
de cabeça baixa.

Como uma mãe tem coragem de fazer isso? Documento é coisa séria, ela não pode prender sua vida assim. Minha vontade era ir aí agora te tirar do chão e chutar essa porta. 😭
ResponderExcluirSenti o frio desse interfone daqui. É o auge da humilhação. Implorar pelo que é SEU. Joyce, sua tia avisou que não seria fácil, mas ninguém se prepara pra um "não" desses vindo da própria mãe.
ResponderExcluir"Eu era um espetáculo". Essa frase me doeu tanto... as pessoas passando e fingindo que não veem a dor do outro pra não "se envolver".
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