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Mentor Imperfeito (19)

Deixei a casa da minha tia com uma única certeza: a de que precisava recuperar minha identidade civil. Pelas vitrines do caminho, via meu reflexo amarrotado, incompleto. Caminhei devagar, precisava de tempo, desejava que o esforço físico atrasasse o inevitável.

Ao chegar à portaria, parei diante da portinhola de metal, pintada de um cinza-claro, que dava direto para a calçada movimentada. Era baixa, inexpressiva. Toquei o interfone. Esperei. Nada. Toquei novamente, desta vez segurando o botão por mais tempo, insistindo na minha existência. Ao todo, foram quatro vezes.

A voz da minha mãe finalmente saiu pela caixa de som, perguntando quem era. Identifiquei-me e expliquei que precisava subir apenas para pegar meus documentos, lembrando que ela tinha ficado com minhas chaves no dia em que me expulsou. A resposta veio rápida e seca, afirmando que não havia nada para mim ali e dizendo que eu devia ir embora.

O estalo do desligamento cortou a conversa antes que eu pudesse argumentar. Não me movi. Apoiei a testa na grade fria do portão e apertei o botão outra vez, insistindo pela quinta, sexta e sétima vez. O som repetitivo tornava-se um alarme do meu desespero.

Minha mãe apareceu. Abriu a porta apenas o suficiente para ocupar o vão com o rosto. Expliquei que precisava do diploma, da habilitação, da carteira de trabalho, pois sem aqueles papéis eu não poderia trabalhar nem seguir com a vida. Minha voz falhava, mas mantive meus olhos fixos nos dela. Ela apenas cruzou os braços e afirmou que eu havia feito minha escolha.

Ela começou a fechar a porta. Gritei por ela. Gritei que só queria meus documentos. Nada. As pessoas que passavam pela calçada aceleravam o passo, desviando o olhar. Eu era um espetáculo. Uma perturbação da ordem.

Insisti, implorei que ela me entregasse ao menos minha carteira que continha minha identidade, mas ela disse não. Perguntei, incrédula: "Como assim não!". Disse que os documentos eram meus, e ela respondeu que eu devia ter pensado nisso antes.

Ela fechou a porta por completo. Vi suas costas se afastando pelas escadas. Encostei a testa no interfone, sentindo o metal gelado contra a pele. Respirei fundo, consciente de que não tinha destino sem aqueles papéis. Deslizei pela parede ao lado da porta até o chão. Fiquei ali sentada, abraçando os joelhos e de cabeça baixa.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Como uma mãe tem coragem de fazer isso? Documento é coisa séria, ela não pode prender sua vida assim. Minha vontade era ir aí agora te tirar do chão e chutar essa porta. 😭

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  2. Senti o frio desse interfone daqui. É o auge da humilhação. Implorar pelo que é SEU. Joyce, sua tia avisou que não seria fácil, mas ninguém se prepara pra um "não" desses vindo da própria mãe.

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  3. "Eu era um espetáculo". Essa frase me doeu tanto... as pessoas passando e fingindo que não veem a dor do outro pra não "se envolver".

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