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Degredo (1)

Acordei com o apito da chaleira. Permaneci deitada, tentando organizar pensamentos que se recusavam a qualquer ordem, observando um quadrado de luz deslocar-se pela parede, milímetro a milímetro, acompanhando a ascensão do sol. Do lado de fora, minha tia refazia seu cotidiano, me incluindo. Eu não. Ainda me sentia provisória.

O rádio soava baixo quando entrei na cozinha para o café. Minha tia ergueu os olhos e acenou com a cabeça em direção à mesa, onde uma xícara já me esperava. Sentei. O café estava quente e forte. Entre um gole e outro, ela anunciou que sairíamos mais tarde, quando retornasse de suas vendas. Mencionou uma conhecida que trabalhava na Delegacia de Polícia Civil, alguém que talvez pudesse orientar sobre a recuperação dos meus documentos. Não era garantia de nada, advertiu, mas ficar parada certamente não mudaria a situação.

Assenti antes mesmo de perceber o que havia aceitado.

Terminei o café. Lavei a louça. Voltei ao quarto e sentei-me à beira da cama. Peguei o celular. Nenhuma mensagem. Devolvi o aparelho à mesa de cabeceira.

As horas se arrastaram. Tentei ler novamente. Tentei deitar. Tentei não pensar. Nada funcionava. Preparei o almoço. Esperei. A tarde chegou com uma lentidão que beirava a crueldade. Minha tia bateu à porta e disse que estava na hora. Comemos em silêncio. Peguei a bolsa. Saímos.


"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. "O quadrado de luz se deslocando na parede" que descrição perfeita da ansiedade. Quando a gente não tem o que fazer, a gente vira observadora do tempo, né? É agoniante. Mas que bom que você pegou a bolsa e saiu. O primeiro passo é o mais pesado.

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    1. Bia, sua observação sobre o "quadrado de luz" e a ansiedade é perfeita! Obrigada por essa leitura tão sensível!

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  2. Finalmente um plano! Se a sua tia tem o esquema na Polícia Civil, já é meio caminho andado. No Brasil, se você não tem o "QI" (Quem Indique), as coisas não andam kkkk.

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    1. Marcos, você tem toda razão! Finalmente um plano, né?

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  3. Joyce, seu blog tem uma força incrível porque você não precisa de grandes acontecimentos para prender. Esse café quente, o celular sem mensagens e as horas se arrastando dizem muito sobre seu estado naquele momento.

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    1. Karina, que lindo o que você disse sobre a força do blog! Fico feliz que você sinta que não preciso de grandes acontecimentos para prender. É exatamente isso, a beleza está nos detalhes, no café quente, no celular sem mensagens e nas horas que se arrastam. Você capturou a essência do momento. Obrigada!

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  4. Fiquei pensando em como o vazio da espera combina com os outros textos em que você fuma para preencher o tempo, Joyce. Aqui, mesmo sem o cigarro presente, existe a mesma tensão silenciosa dos seus rituais.

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    1. Anna, sua reflexão sobre o vazio da espera e a tensão silenciosa é muito profunda. É verdade, mesmo sem o cigarro presente, a espera tem seus próprios rituais e uma tensão que se assemelha. Fico feliz que você tenha percebido essa conexão com os outros textos. Obrigada por essa leitura tão atenta!

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  5. A frase sobre sua tia refazer o cotidiano incluindo você foi linda, Joyce. Mostra cuidado, mas também a distância entre quem consegue seguir e quem ainda está tentando voltar para si.

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    1. André, sua interpretação sobre a frase da minha tia e a distância entre quem consegue seguir e quem está tentando voltar para si é muito tocante. É uma observação muito perspicaz e me fez refletir. Obrigada por essa leitura tão cuidadosa e por compartilhar sua percepção!

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  6. Joyce, ler seu passado assim é quase habitar o quarto com você. O celular sem mensagens na mesa de cabeceira carregou uma solidão tão específica que doeu.

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    1. Fico feliz que você tenha se conectado tão profundamente com essa sensação. Obrigada por essa empatia!

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  7. O que mais me encanta no seu blog é essa honestidade do tempo lento. Você transforma espera em narrativa, e isso deixa tudo muito sensorial. Quase ouvi o rádio e a chaleira.

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    1. Fico muito feliz que você sinta essa transformação da espera em narrativa e que tudo se torne sensorial. Obrigada por essa percepção tão rica!

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  8. Essa ida à delegacia no fim do trecho cria uma ansiedade silenciosa muito boa, Joyce. A sensação é de que você ainda está sendo levada pelos acontecimentos, sem conseguir decidir o próprio ritmo.

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    1. A sensação de ser levada pelos acontecimentos, sem conseguir decidir o próprio ritmo, é algo que me acompanha. Fico feliz que você tenha sentido essa nuance. Obrigada por essa leitura tão perspicaz!

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