Acordei com o apito da chaleira.
Permaneci deitada, tentando organizar pensamentos que se recusavam a qualquer
ordem, observando um quadrado de luz deslocar-se pela parede, milímetro a
milímetro, acompanhando a ascensão do sol. Do lado de fora, minha tia refazia
seu cotidiano, me incluindo. Eu não. Ainda me sentia provisória.
O rádio soava baixo quando entrei
na cozinha para o café. Minha tia ergueu os olhos e acenou com a cabeça em
direção à mesa, onde uma xícara já me esperava. Sentei. O café estava quente e
forte. Entre um gole e outro, ela anunciou que sairíamos mais tarde, quando
retornasse de suas vendas. Mencionou uma conhecida que trabalhava na Delegacia
de Polícia Civil, alguém que talvez pudesse orientar sobre a recuperação dos
meus documentos. Não era garantia de nada, advertiu, mas ficar parada
certamente não mudaria a situação.
Assenti antes mesmo de perceber o
que havia aceitado.
Terminei o café. Lavei a louça.
Voltei ao quarto e sentei-me à beira da cama. Peguei o celular. Nenhuma
mensagem. Devolvi o aparelho à mesa de cabeceira.
As horas se arrastaram. Tentei
ler novamente. Tentei deitar. Tentei não pensar. Nada funcionava. Preparei o
almoço. Esperei. A tarde chegou com uma lentidão que beirava a crueldade. Minha
tia bateu à porta e disse que estava na hora. Comemos em silêncio. Peguei a
bolsa. Saímos.

"O quadrado de luz se deslocando na parede" que descrição perfeita da ansiedade. Quando a gente não tem o que fazer, a gente vira observadora do tempo, né? É agoniante. Mas que bom que você pegou a bolsa e saiu. O primeiro passo é o mais pesado.
ResponderExcluirBia, sua observação sobre o "quadrado de luz" e a ansiedade é perfeita! Obrigada por essa leitura tão sensível!
ExcluirFinalmente um plano! Se a sua tia tem o esquema na Polícia Civil, já é meio caminho andado. No Brasil, se você não tem o "QI" (Quem Indique), as coisas não andam kkkk.
ResponderExcluirMarcos, você tem toda razão! Finalmente um plano, né?
ExcluirJoyce, seu blog tem uma força incrível porque você não precisa de grandes acontecimentos para prender. Esse café quente, o celular sem mensagens e as horas se arrastando dizem muito sobre seu estado naquele momento.
ResponderExcluirKarina, que lindo o que você disse sobre a força do blog! Fico feliz que você sinta que não preciso de grandes acontecimentos para prender. É exatamente isso, a beleza está nos detalhes, no café quente, no celular sem mensagens e nas horas que se arrastam. Você capturou a essência do momento. Obrigada!
ExcluirFiquei pensando em como o vazio da espera combina com os outros textos em que você fuma para preencher o tempo, Joyce. Aqui, mesmo sem o cigarro presente, existe a mesma tensão silenciosa dos seus rituais.
ResponderExcluirAnna, sua reflexão sobre o vazio da espera e a tensão silenciosa é muito profunda. É verdade, mesmo sem o cigarro presente, a espera tem seus próprios rituais e uma tensão que se assemelha. Fico feliz que você tenha percebido essa conexão com os outros textos. Obrigada por essa leitura tão atenta!
ExcluirA frase sobre sua tia refazer o cotidiano incluindo você foi linda, Joyce. Mostra cuidado, mas também a distância entre quem consegue seguir e quem ainda está tentando voltar para si.
ResponderExcluirAndré, sua interpretação sobre a frase da minha tia e a distância entre quem consegue seguir e quem está tentando voltar para si é muito tocante. É uma observação muito perspicaz e me fez refletir. Obrigada por essa leitura tão cuidadosa e por compartilhar sua percepção!
ExcluirJoyce, ler seu passado assim é quase habitar o quarto com você. O celular sem mensagens na mesa de cabeceira carregou uma solidão tão específica que doeu.
ResponderExcluirFico feliz que você tenha se conectado tão profundamente com essa sensação. Obrigada por essa empatia!
ExcluirO que mais me encanta no seu blog é essa honestidade do tempo lento. Você transforma espera em narrativa, e isso deixa tudo muito sensorial. Quase ouvi o rádio e a chaleira.
ResponderExcluirFico muito feliz que você sinta essa transformação da espera em narrativa e que tudo se torne sensorial. Obrigada por essa percepção tão rica!
ExcluirEssa ida à delegacia no fim do trecho cria uma ansiedade silenciosa muito boa, Joyce. A sensação é de que você ainda está sendo levada pelos acontecimentos, sem conseguir decidir o próprio ritmo.
ResponderExcluirA sensação de ser levada pelos acontecimentos, sem conseguir decidir o próprio ritmo, é algo que me acompanha. Fico feliz que você tenha sentido essa nuance. Obrigada por essa leitura tão perspicaz!
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