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Degredo (2)

No trajeto, ela falava ocasionalmente sobre coisas práticas: horários, documentos, procedimentos. Eu concordava com a cabeça, meio ausente, enquanto a cidade se desenrolava pela janela do carro.

O prédio da delegacia era uma estrutura moderna de dois pavimentos, onde o branco da fachada contrastava com o marrom das bases e o padrão dos cobogós. Ted nos esperava à porta, posicionado sob as longas fileiras de janelas com esquadrias escuras que recortavam a lateral do edifício.

A mulher que minha tia conhecia apareceu poucos minutos depois, cumprimentou-a com familiaridade e voltou-se para mim com atenção profissional. Entramos.

O interior emanava suor, papel envelhecido e desinfetante de pinho. Era uma combinação que parecia condensar todas as pequenas tragédias pessoais que passavam por ali. A iluminação branca e inflexível revelava cada detalhe com crueza: as pessoas aguardando em cadeiras de plástico, algumas murmurando entre si, outras simplesmente olhando para o vazio.

Uma mulher ninava um bebê no colo. Um homem idoso segurava um boné entre as mãos, girando-o lentamente. Todos ali compartilhavam a mesma expressão: a de quem estava naquele lugar contra a própria vontade, acumulados dentro daquele limbo administrativo.

Fui conduzida a uma sala menor, onde me pediram que relatasse o que havia ocorrido.

Falar exigiu um esforço que eu não previra. Até então, tudo permanecia dentro de mim, maleável. Narrar significava escolher palavras definitivas, e o definitivo torna as coisas reais.

Eu disse que fora impedida de entrar em casa. Acrescentei que precisava dos meus pertences para trabalhar; para existir formalmente.

O policial anotava tudo com letra miúda e inclinada. De vez em quando, fazia uma pergunta para esclarecer algum detalhe. O rosto era neutro, profissional. Aquela impassibilidade me desestabilizou. Havia em mim a expectativa discreta de que alguém sugerisse que eu estava exagerando, que aquilo se resolveria sozinho. Ninguém o fez.

Quando terminei, ele pousou a caneta sobre a mesa com cuidado e explicou que poderíamos registrar um boletim de ocorrência. Com o documento em mãos, seria possível solicitar acompanhamento policial até o apartamento dos meus pais. Eles seriam obrigados a me deixar entrar para retirar meus pertences. Perguntei quanto tempo levaria. Ele respondeu que, se fizéssemos o registro ali mesmo, talvez conseguíssemos a viatura naquela tarde.

O ventilador girava no teto. Uma gota de suor desceu pela minha têmpora. Não a limpei; deixei-a escorrer. O desconforto me mantinha presente. Voltar àquele prédio era atravessar o Rubicão. Havia a possibilidade de que meus pais estivessem lá; havia a possibilidade de que não. Ambas me assustavam.


"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Joyce, meu coração parou aqui! 💓 "O definitivo torna as coisas reais"... que frase forte. Registrar o BO é como assinar um papel dizendo pro mundo que o que seu pai fez foi errado.

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    1. Bia, que bom que você sentiu a força dessa frase!

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  2. Joyce, essa parte sobre narrar e tornar tudo definitivo me atravessou. Enquanto estava só dentro de você, ainda havia uma espécie de névoa protetora. Quando o policial começou a escrever, senti junto esse momento em que a dor ganha forma e não pode mais ser desdita.

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    1. Karina, sua observação é muito perspicaz. Fico feliz que você tenha se conectado com essa experiência. Obrigada por compartilhar!

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  3. A delegacia no seu texto quase se torna um personagem, Joyce. O cheiro de papel envelhecido, suor e desinfetante cria uma atmosfera sufocante, cheia das histórias interrompidas de outras pessoas. Fiquei completamente dentro da cena.
    O momento em que você diz que precisava dos pertences “para existir formalmente” ficou muito forte. Não era só sobre objetos, mas sobre recuperar uma parte concreta de si mesma.
    Essa última ideia de atravessar um ponto sem retorno ficou poderosa demais, Joyce. O medo de encontrar os pais e o medo de não encontrá-los revelam que às vezes qualquer desfecho possível carrega sua própria forma de perda.

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    1. Muito obrigada por essa análise tão profunda e sensível!

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  4. Quero ver a cara do seu pai quando a polícia bater lá. Pega tudo que é seu, não deixa nem um alfinete pra trás! 😤

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    1. Obrigada pelo apoio e pela energia!

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