No trajeto, ela falava
ocasionalmente sobre coisas práticas: horários, documentos, procedimentos. Eu
concordava com a cabeça, meio ausente, enquanto a cidade se desenrolava pela
janela do carro.
O prédio da delegacia era uma
estrutura moderna de dois pavimentos, onde o branco da fachada contrastava com
o marrom das bases e o padrão dos cobogós. Ted nos esperava à porta,
posicionado sob as longas fileiras de janelas com esquadrias escuras que recortavam
a lateral do edifício.
A mulher que minha tia conhecia
apareceu poucos minutos depois, cumprimentou-a com familiaridade e voltou-se
para mim com atenção profissional. Entramos.
O interior emanava suor, papel
envelhecido e desinfetante de pinho. Era uma combinação que parecia condensar
todas as pequenas tragédias pessoais que passavam por ali. A iluminação branca
e inflexível revelava cada detalhe com crueza: as pessoas aguardando em
cadeiras de plástico, algumas murmurando entre si, outras simplesmente olhando
para o vazio.
Uma mulher ninava um bebê no
colo. Um homem idoso segurava um boné entre as mãos, girando-o lentamente.
Todos ali compartilhavam a mesma expressão: a de quem estava naquele lugar
contra a própria vontade, acumulados dentro daquele limbo administrativo.
Fui conduzida a uma sala menor,
onde me pediram que relatasse o que havia ocorrido.
Falar exigiu um esforço que eu
não previra. Até então, tudo permanecia dentro de mim, maleável. Narrar
significava escolher palavras definitivas, e o definitivo torna as coisas
reais.
Eu disse que fora impedida de
entrar em casa. Acrescentei que precisava dos meus pertences para trabalhar;
para existir formalmente.
O policial anotava tudo com letra
miúda e inclinada. De vez em quando, fazia uma pergunta para esclarecer algum
detalhe. O rosto era neutro, profissional. Aquela impassibilidade me
desestabilizou. Havia em mim a expectativa discreta de que alguém sugerisse que
eu estava exagerando, que aquilo se resolveria sozinho. Ninguém o fez.
Quando terminei, ele pousou a
caneta sobre a mesa com cuidado e explicou que poderíamos registrar um boletim
de ocorrência. Com o documento em mãos, seria possível solicitar acompanhamento
policial até o apartamento dos meus pais. Eles seriam obrigados a me deixar
entrar para retirar meus pertences. Perguntei quanto tempo levaria. Ele
respondeu que, se fizéssemos o registro ali mesmo, talvez conseguíssemos a
viatura naquela tarde.
O ventilador girava no teto. Uma gota de suor desceu pela minha têmpora. Não a limpei; deixei-a escorrer. O desconforto me mantinha presente. Voltar àquele prédio era atravessar o Rubicão. Havia a possibilidade de que meus pais estivessem lá; havia a possibilidade de que não. Ambas me assustavam.

Joyce, meu coração parou aqui! 💓 "O definitivo torna as coisas reais"... que frase forte. Registrar o BO é como assinar um papel dizendo pro mundo que o que seu pai fez foi errado.
ResponderExcluirBia, que bom que você sentiu a força dessa frase!
ExcluirJoyce, essa parte sobre narrar e tornar tudo definitivo me atravessou. Enquanto estava só dentro de você, ainda havia uma espécie de névoa protetora. Quando o policial começou a escrever, senti junto esse momento em que a dor ganha forma e não pode mais ser desdita.
ResponderExcluirKarina, sua observação é muito perspicaz. Fico feliz que você tenha se conectado com essa experiência. Obrigada por compartilhar!
ExcluirA delegacia no seu texto quase se torna um personagem, Joyce. O cheiro de papel envelhecido, suor e desinfetante cria uma atmosfera sufocante, cheia das histórias interrompidas de outras pessoas. Fiquei completamente dentro da cena.
ResponderExcluirO momento em que você diz que precisava dos pertences “para existir formalmente” ficou muito forte. Não era só sobre objetos, mas sobre recuperar uma parte concreta de si mesma.
Essa última ideia de atravessar um ponto sem retorno ficou poderosa demais, Joyce. O medo de encontrar os pais e o medo de não encontrá-los revelam que às vezes qualquer desfecho possível carrega sua própria forma de perda.
Muito obrigada por essa análise tão profunda e sensível!
ExcluirQuero ver a cara do seu pai quando a polícia bater lá. Pega tudo que é seu, não deixa nem um alfinete pra trás! 😤
ResponderExcluirObrigada pelo apoio e pela energia!
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