Meu pai atendeu.
Expliquei que precisava entrar
para buscar minhas coisas. Não houve o ruído do portão destravando. Apenas a
resposta de que não havia nada ali que eu precisasse pegar.
O policial deu um passo à frente
e se inclinou em direção ao painel. Em um tom alto, calmo e constante, disse
seu nome e sua patente. Explicou que eu só ia entrar, pegar minhas coisas e
sair, sem confusão. Meu pai respondeu que não acreditava em nada daquilo.
Acrescentou que, se eu continuasse insistindo, minhas coisas seriam jogadas
pela janela ou simplesmente destruídas.
O portão permaneceu fechado. O
policial tentou argumentar.
Levantei a cabeça. Meu corpo
inteiro ficou tenso. Meus olhos iam de uma janela a outra. A respiração falhou;
o ar entrava em golpes. Senti o estômago contrair ao primeiro barulho. Pensei
nas caixas se abrindo no ar, nas minhas calcinhas expostas no centro da cidade. Só me vinha a sensação do impacto, repetida, antecipada.
Por um instante, ouvi algo se abrindo e um estilhaço contra o chão.
Dei um passo para trás. Quando
notei, já estava correndo em direção ao supermercado, atenta demais ao som de
qualquer coisa atrás de mim.
O ar-condicionado gelado batendo
contra o rosto. Prateleiras organizadas em corredores simétricos. Embalagens
precisamente dispostas de maneira lógica, cores repetidas, etiquetas alinhadas.
E eu perdida entre elas, procurando por Ted.
O encontrei em um caixa. Estava
pagando uma lata de refrigerante, segurando-a com a mão direita enquanto
procurava a carteira com a esquerda. Observei o modo como ele colocava o
dinheiro no balcão, a tranquilidade do gesto; a esteira que levava a lata até a
atendente de cabelos presos e avental verde, que registrava a compra sem erguer
o olhar.
Entrei correndo.
Chamei por seu nome.
A voz saiu trêmula, falhada, mais
baixa do que eu pretendia.
Ele levantou os olhos. Fui até o
caixa e o puxei em atropelo. As palavras saíam fora de ordem. Enquanto o levava
para fora, contei que meu pai estava jogando minhas coisas pela janela.
As pessoas na fila olharam. Ted
ouviu. Não disse nada. A lata em sua mão.
Ganhamos a rua. Ergui o olhar em
busca das janelas; as cortinas continuavam fechadas. Baixei os olhos: o portão
do edifício estava aberto. Não havia nada no
chão.

Joyce, meu Deus, que maldade! 😭 Ele não jogou nada, mas ele jogou a sua sanidade no chão com essa ameaça. Eu senti o seu desespero daqui, a vergonha de imaginar suas coisas na rua.
ResponderExcluirJuro que no momento eu vi. Foi muito forte. Na minha cabeça ele tinha jogado.
Excluir"As cores repetidas, etiquetas alinhadas e eu perdida". Essa descrição do supermercado como um lugar de ordem enquanto você desmoronava foi linda. 💔
ResponderExcluirObrigada
ExcluirJoyceeee, que susto! 😱 Eu achei que ia ler sobre suas roupas no meio da rua msm.
ResponderExcluirFoi o que eu imaginei. Na kinha cabeça ele tinha jogado.
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