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Degredo (4)

Meu pai atendeu.

Expliquei que precisava entrar para buscar minhas coisas. Não houve o ruído do portão destravando. Apenas a resposta de que não havia nada ali que eu precisasse pegar.

O policial deu um passo à frente e se inclinou em direção ao painel. Em um tom alto, calmo e constante, disse seu nome e sua patente. Explicou que eu só ia entrar, pegar minhas coisas e sair, sem confusão. Meu pai respondeu que não acreditava em nada daquilo. Acrescentou que, se eu continuasse insistindo, minhas coisas seriam jogadas pela janela ou simplesmente destruídas.

O portão permaneceu fechado. O policial tentou argumentar.

Levantei a cabeça. Meu corpo inteiro ficou tenso. Meus olhos iam de uma janela a outra. A respiração falhou; o ar entrava em golpes. Senti o estômago contrair ao primeiro barulho. Pensei nas caixas se abrindo no ar, nas minhas calcinhas expostas no centro da cidade. Só me vinha a sensação do impacto, repetida, antecipada. Por um instante, ouvi algo se abrindo e um estilhaço contra o chão.

Dei um passo para trás. Quando notei, já estava correndo em direção ao supermercado, atenta demais ao som de qualquer coisa atrás de mim.

O ar-condicionado gelado batendo contra o rosto. Prateleiras organizadas em corredores simétricos. Embalagens precisamente dispostas de maneira lógica, cores repetidas, etiquetas alinhadas. E eu perdida entre elas, procurando por Ted.

O encontrei em um caixa. Estava pagando uma lata de refrigerante, segurando-a com a mão direita enquanto procurava a carteira com a esquerda. Observei o modo como ele colocava o dinheiro no balcão, a tranquilidade do gesto; a esteira que levava a lata até a atendente de cabelos presos e avental verde, que registrava a compra sem erguer o olhar.

Entrei correndo.

Chamei por seu nome.

A voz saiu trêmula, falhada, mais baixa do que eu pretendia.

Ele levantou os olhos. Fui até o caixa e o puxei em atropelo. As palavras saíam fora de ordem. Enquanto o levava para fora, contei que meu pai estava jogando minhas coisas pela janela.

As pessoas na fila olharam. Ted ouviu. Não disse nada. A lata em sua mão.

Ganhamos a rua. Ergui o olhar em busca das janelas; as cortinas continuavam fechadas. Baixei os olhos: o portão do edifício estava aberto. Não havia nada no chão.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Joyce, meu Deus, que maldade! 😭 Ele não jogou nada, mas ele jogou a sua sanidade no chão com essa ameaça. Eu senti o seu desespero daqui, a vergonha de imaginar suas coisas na rua.

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    1. Juro que no momento eu vi. Foi muito forte. Na minha cabeça ele tinha jogado.

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  2. "As cores repetidas, etiquetas alinhadas e eu perdida". Essa descrição do supermercado como um lugar de ordem enquanto você desmoronava foi linda. 💔

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  3. Joyceeee, que susto! 😱 Eu achei que ia ler sobre suas roupas no meio da rua msm.

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    1. Foi o que eu imaginei. Na kinha cabeça ele tinha jogado.

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