A última mala bateu na soleira
antes do asfalto. Ted empilhava no porta-malas aberto o que minha tia ajudara a
descer. Eu segurava a bolsa contra o peito, sem saber direito o que fazer com
as mãos quando elas não carregavam nada.
As caixas de papelão foram
acomodadas uma sobre a outra. O som oco do impacto me fez pensar nos cabides
batendo no armário minutos antes. Ted ajustou o peso, pressionou as laterais
para que não cedessem na curva e fechou a tampa com cuidado. Ninguém disse que
estava pronto, mas entramos.
Sentei no banco de trás. A mala
no colo. O cheiro de estofado aquecido pelo sol se misturava com o contorno
rígido do ombro de Ted. Quando o carro arrancou, não olhei para o prédio, mas
para a sua mão apoiada no joelho. Ainda assim, soube o momento exato em que
deixamos a frente do portão. O movimento do carro alterou o peso do corpo
contra o encosto. Eu me mantive ereta, as mãos sobre o zíper da mala.
Eu ainda sentia o peso do olhar
do meu pai. Não era raiva. Raiva eu teria reconhecido; raiva é uma linguagem
que a gente constrói ao longo de anos, tijolo por tijolo. O que havia no rosto
dele era outra coisa. Era nojo: boca levemente franzida, olhos estreitados. Os
olhos fixos em mim. Não havia grito naquele instante. Ele não tentou me
impedir. Apenas observou.
E minha mãe. Ela não levantou.
Ela não virou. Apenas olhava para a mesa. Eu vi apenas suas costas. Não houve
gesto de despedida.
O carro parou no sinal vermelho. Minha tia trocou o rádio de estação sem encontrar nada e desligou. Dobramos a esquina. Um ônibus freou adiante. Dois adolescentes atravessaram correndo. Minha tia mantinha as duas mãos no volante. Ted olhava para frente. Eu pressionei o polegar contra o cursor do zíper até sentir a borda de metal marcar a pele. O rádio permaneceu desligado.
"O nojo é uma linguagem que a gente constrói"... que frase triste e real.
ResponderExcluir❤️
ExcluirImaginei você saindo do apartamento, olhando para sua mãe e acendendo um cigarro, e soltando a fumaça ao passar pelo seu pai, nossa…
ResponderExcluirEra uma derrota, não uma vitória
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