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Degredo (6)

A última mala bateu na soleira antes do asfalto. Ted empilhava no porta-malas aberto o que minha tia ajudara a descer. Eu segurava a bolsa contra o peito, sem saber direito o que fazer com as mãos quando elas não carregavam nada.

As caixas de papelão foram acomodadas uma sobre a outra. O som oco do impacto me fez pensar nos cabides batendo no armário minutos antes. Ted ajustou o peso, pressionou as laterais para que não cedessem na curva e fechou a tampa com cuidado. Ninguém disse que estava pronto, mas entramos.

Sentei no banco de trás. A mala no colo. O cheiro de estofado aquecido pelo sol se misturava com o contorno rígido do ombro de Ted. Quando o carro arrancou, não olhei para o prédio, mas para a sua mão apoiada no joelho. Ainda assim, soube o momento exato em que deixamos a frente do portão. O movimento do carro alterou o peso do corpo contra o encosto. Eu me mantive ereta, as mãos sobre o zíper da mala.

Eu ainda sentia o peso do olhar do meu pai. Não era raiva. Raiva eu teria reconhecido; raiva é uma linguagem que a gente constrói ao longo de anos, tijolo por tijolo. O que havia no rosto dele era outra coisa. Era nojo: boca levemente franzida, olhos estreitados. Os olhos fixos em mim. Não havia grito naquele instante. Ele não tentou me impedir. Apenas observou.

E minha mãe. Ela não levantou. Ela não virou. Apenas olhava para a mesa. Eu vi apenas suas costas. Não houve gesto de despedida.

O carro parou no sinal vermelho. Minha tia trocou o rádio de estação sem encontrar nada e desligou. Dobramos a esquina. Um ônibus freou adiante. Dois adolescentes atravessaram correndo. Minha tia mantinha as duas mãos no volante. Ted olhava para frente. Eu pressionei o polegar contra o cursor do zíper até sentir a borda de metal marcar a pele. O rádio permaneceu desligado.



"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. "O nojo é uma linguagem que a gente constrói"... que frase triste e real.

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  2. Imaginei você saindo do apartamento, olhando para sua mãe e acendendo um cigarro, e soltando a fumaça ao passar pelo seu pai, nossa…

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    Respostas
    1. Era uma derrota, não uma vitória

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