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Degredo (7)

Descarregamos as caixas do porta-malas e seguimos para o elevador. O peso das caixas nos braços ocupou o resto do caminho, até pararmos diante da porta que minha tia destrancava.

Ted ficou um passo atrás de mim quando entramos. Limpou discretamente a sola do sapato no capacho. Minha tia, pelo canto do olho, acompanhou o gesto e abriu um sorriso silencioso.

O apartamento tinha um cheiro adocicado que eu nunca consegui identificar com precisão. Talvez fosse apenas o madeiramento dos móveis velhos aquecido pelo sol da tarde.

Ted apoiou a caixa no corredor estreito enquanto eu deixava a bolsa sobre a cadeira. Ele percorreu o ambiente com o olhar contido: os quadros pequenos nas paredes, os bibelôs de cerâmica na estante, a cortina de renda que ondulava sob um vento que não havia, enquanto a luz da tarde atravessava seu grosso tecido, amarelando tudo.

Minha tia indicou o sofá. Ted disse que estava bem. Ela insistiu. Ele se sentou. Ela foi à cozinha.

Sentei-me ao lado de Ted. Nossas pernas se tocaram e minha tia retornou com três copos. Colocou-os sobre a mesa de centro e ficou de pé por um instante, olhando para Ted. Depois sentou de frente para nós, cruzou as pernas, apoiou as mãos sobre o joelho. Olhou primeiro para mim, depois para ele.

Começamos a falar sobre o trajeto. Minha tia mencionou o buraco na rua que aparecia com a chuva, sumia com o asfalto, voltava com a chuva seguinte. Ted conhecia uma rua assim perto do trabalho. Ela achou graça e o questionou sobre o emprego. 

Ele falou da burocracia que se amontoava e dos documentos que lhe tomavam o tempo de fazer o que realmente importava, mas explicou que a escala de horários, diferente para cada dia da semana, era o que garantia tempo para os seus amigos, discos e livros; e nada mais.

Minha tia soltou um “hmm” seco, levantou-se e foi até a estante. Retirou o vinil de 1972 da Elis Regina. Ted abriu um sorriso largo e relaxou de vez os ombros enquanto ela colocava a agulha sobre o disco.

Ao som da música, ele recordou que nos tempos de faculdade morar com amigos significava ter mais gente do que quartos. O grupo misturava músicos, fotógrafos, artistas de rua, e quem, como Ted, estava ali apenas pela amizade. De todos os artistas da casa, apenas um estudava o que praticava: Música.

Além dos moradores, a casa transbordava de gente e de festas; as portas nunca viam um cadeado trancado, quem chegava era bem-vindo e quem ficava era esperado. Naquelas noites, o rigor da Psicologia ou da Engenharia dava lugar ao improviso: madrugadas inteiras dedicadas a decifrar acordes e testar o alcance de pedais e violões.

Eu conseguia imaginar o movimento constante da república enquanto ele falava. Portas abrindo, passos no corredor, alguém ocupando um canto da sala para dormir. Uma casa que nunca estava vazia. Sempre havia alguém acordado, alguém lendo, alguém tocando.

Os vizinhos foram perdendo a paciência na mesma proporção em que as festas foram ganhando volume, e trocar de casa dentro da cidade só adiava o inevitável.

A solução foi uma casa na zona rural. As festas continuaram, mas a casa era diferente. Havia silêncio entre uma noite e outra.

Ted gesticulava com as mãos ao descrever o lugar. A distância até a faculdade era um problema real, o trajeto cansava antes mesmo de começar, mas havia espaço e nenhuma obrigação de silêncio. Na sala, apenas um jogo de sofá que alguém havia descartado e um toca-discos dado de presente, ligado nas caixas de som dos instrumentos. Nenhuma televisão. Mesmo assim a casa continuava cheia.

Os dias eram assim: os discos que tocavam do começo ao fim, os livros passavam de mão em mão antes de serem empilhados, e alguém que chegava na sexta e na quarta ainda estava no sofá, às vezes ficava a semana inteira, outras vezes a seguinte também.

Ted olhou para o aparelho na estante da minha tia e ficou quieto, ouvindo Elis cantar: "eu quero a esperança de óculos e um filho de cuca legal." Percebi, naquele instante, que para ele a letra não era fantasia, era endereço: uma casa no campo onde ele podia plantar seus amigos, discos e livros.




"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. "Eu quero uma casa no campo..." 🎶 Joyce, chorei. Minha juventude inteira passou por essa letra. Que coisa linda sua tia colocar Elis pra recepcionar o Ted. Ela sentiu que ele é "dos nossos". Esse cheiro de móvel velho com sol é cheiro de lar. Aproveita essa paz.

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  2. casa de músico e estudante é sempre esse caos maravilhoso kkkk.

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  3. Joyceeee, que clima gostoso! 😍 O gato peralta devia estar amando essa movimentação toda! bjos!

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  4. O momento em que você percebe que, para ele, aquilo não era fantasia mas endereço foi lindo demais, Joyce. É quase como se você enxergasse o mundo dele pela primeira vez de dentro.

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    Respostas
    1. Por ai, claro que agente conversava mais do que aparece no texto rsrs

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