Descarregamos as caixas do
porta-malas e seguimos para o elevador. O peso das caixas nos braços ocupou o
resto do caminho, até pararmos diante da porta que minha tia destrancava.
Ted ficou um passo atrás de mim
quando entramos. Limpou discretamente a sola do sapato no capacho. Minha tia,
pelo canto do olho, acompanhou o gesto e abriu um sorriso silencioso.
O apartamento tinha um cheiro
adocicado que eu nunca consegui identificar com precisão. Talvez fosse apenas o
madeiramento dos móveis velhos aquecido pelo sol da tarde.
Ted apoiou a caixa no corredor
estreito enquanto eu deixava a bolsa sobre a cadeira. Ele percorreu o ambiente
com o olhar contido: os quadros pequenos nas paredes, os bibelôs de cerâmica na
estante, a cortina de renda que ondulava sob um vento que não havia, enquanto a
luz da tarde atravessava seu grosso tecido, amarelando tudo.
Minha tia indicou o sofá. Ted
disse que estava bem. Ela insistiu. Ele se sentou. Ela foi à cozinha.
Sentei-me ao lado de Ted. Nossas
pernas se tocaram e minha tia retornou com três copos. Colocou-os sobre a mesa
de centro e ficou de pé por um instante, olhando para Ted. Depois sentou de
frente para nós, cruzou as pernas, apoiou as mãos sobre o joelho. Olhou
primeiro para mim, depois para ele.
Começamos a falar sobre o
trajeto. Minha tia mencionou o buraco na rua que aparecia com a chuva, sumia
com o asfalto, voltava com a chuva seguinte. Ted conhecia uma rua assim perto
do trabalho. Ela achou graça e o questionou sobre o emprego.
Ele falou da burocracia que se
amontoava e dos documentos que lhe tomavam o tempo de fazer o que realmente
importava, mas explicou que a escala de horários, diferente para cada dia da
semana, era o que garantia tempo para os seus amigos, discos e livros; e nada
mais.
Minha tia soltou um “hmm” seco,
levantou-se e foi até a estante. Retirou o vinil de 1972 da Elis Regina. Ted
abriu um sorriso largo e relaxou de vez os ombros enquanto ela colocava a
agulha sobre o disco.
Ao som da música, ele recordou
que nos tempos de faculdade morar com amigos significava ter mais gente do que
quartos. O grupo misturava músicos, fotógrafos, artistas de rua, e quem, como
Ted, estava ali apenas pela amizade. De todos os artistas da casa, apenas um
estudava o que praticava: Música.
Além dos moradores, a casa
transbordava de gente e de festas; as portas nunca viam um cadeado trancado,
quem chegava era bem-vindo e quem ficava era esperado. Naquelas noites, o rigor
da Psicologia ou da Engenharia dava lugar ao improviso: madrugadas inteiras
dedicadas a decifrar acordes e testar o alcance de pedais e violões.
Eu conseguia imaginar o movimento
constante da república enquanto ele falava. Portas abrindo, passos no corredor,
alguém ocupando um canto da sala para dormir. Uma casa que nunca estava vazia.
Sempre havia alguém acordado, alguém lendo, alguém tocando.
Os vizinhos foram perdendo a
paciência na mesma proporção em que as festas foram ganhando volume, e trocar
de casa dentro da cidade só adiava o inevitável.
A solução foi uma casa na zona
rural. As festas continuaram, mas a casa era diferente. Havia silêncio entre
uma noite e outra.
Ted gesticulava com as mãos ao
descrever o lugar. A distância até a faculdade era um problema real, o trajeto
cansava antes mesmo de começar, mas havia espaço e nenhuma obrigação de
silêncio. Na sala, apenas um jogo de sofá que alguém havia descartado e um
toca-discos dado de presente, ligado nas caixas de som dos instrumentos.
Nenhuma televisão. Mesmo assim a casa continuava cheia.
Os dias eram assim: os discos que
tocavam do começo ao fim, os livros passavam de mão em mão antes de serem
empilhados, e alguém que chegava na sexta e na quarta ainda estava no sofá, às
vezes ficava a semana inteira, outras vezes a seguinte também.
Ted olhou para o aparelho na
estante da minha tia e ficou quieto, ouvindo Elis cantar: "eu quero a
esperança de óculos e um filho de cuca legal." Percebi, naquele instante,
que para ele a letra não era fantasia, era endereço: uma casa no campo onde ele
podia plantar seus amigos, discos e livros.

"Eu quero uma casa no campo..." 🎶 Joyce, chorei. Minha juventude inteira passou por essa letra. Que coisa linda sua tia colocar Elis pra recepcionar o Ted. Ela sentiu que ele é "dos nossos". Esse cheiro de móvel velho com sol é cheiro de lar. Aproveita essa paz.
ResponderExcluirMúsica linda msm
Excluircasa de músico e estudante é sempre esse caos maravilhoso kkkk.
ResponderExcluirA mi ha não foi 😢
ExcluirJoyceeee, que clima gostoso! 😍 O gato peralta devia estar amando essa movimentação toda! bjos!
ResponderExcluirInstruso rsrsrs
ExcluirO momento em que você percebe que, para ele, aquilo não era fantasia mas endereço foi lindo demais, Joyce. É quase como se você enxergasse o mundo dele pela primeira vez de dentro.
ResponderExcluirPor ai, claro que agente conversava mais do que aparece no texto rsrs
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