Levei minhas coisas para o quarto
sem fazer barulho. Não havia muita coisa para carregar, mas o gesto de
atravessar o corredor com elas nos braços pareceu mais definitivo do que eu
esperava. Deixei tudo no chão e fechei a porta. Por um momento fiquei parada,
aguardando alguma reação da casa.
Depois fui ao banheiro.
A água demorou um pouco a
esquentar. Fiquei ali esperando, encostada na parede, ouvindo o som do chuveiro
bater no piso. Lavei o cabelo, passei sabonete pelos braços e pelo peito, e
percebi que não precisava mais esfregar o corpo obsessivamente para tirar o
cheiro de cigarro. Meu corpo deixara de ser uma evidência de crime. Certas
rotinas terminam sem anúncio.
Quando saí, já era noite. No
quarto, acendi apenas o abajur. Peguei uma camiseta larga e penteei o cabelo
ainda úmido. Então abri a janela. A rua estava silenciosa. Apoiei os braços no
parapeito e acendi um cigarro. O primeiro trago veio com uma tontura leve,
agradável. A fumaça subiu devagar diante do vidro.
Olhei para minhas mãos segurando
o cigarro. Depois para minhas pernas, iluminadas pela luz fraca do quarto, elas
se estendiam para fora, relaxadas, ganhando uma extensão que o interior não
permitia. Traguei outra vez.
A larga malha caía até metade das
minhas coxas. O ar da noite tocava a pele que ficava descoberta. Percebi o peso
do meu próprio corpo apoiado no parapeito, a inclinação discreta dos ombros.
Um carro passou ao longe, depois
desapareceu. O vidro refletia uma parte do quarto, misturada à minha silhueta.
Notei a postura da minha coluna, o ritmo da respiração, a camiseta movendo-se
levemente a cada inspiração. Avaliei a minha própria presença ali, a imagem que
meu corpo oferecia ao mundo.
Dei mais um trago e soprei a
fumaça para fora. Fiquei observando enquanto ela se abria no ar e sumia. Ted
gostava de fazer isso, acompanhar a fumaça depois que eu tragava, até o fim.
Apaguei o cigarro no parapeito e
fechei a janela.

"Meu corpo deixara de ser uma evidência de crime." Joyce, essa frase me deu um nó na garganta. 🥺 É libertador demais parar de se esconder dentro da própria pele, né?
ResponderExcluirNossa senhora !
ExcluirA cena da janela ficou cinematográfica. 🚬
ResponderExcluir🙂
ExcluirExiste uma dignidade muito profunda em como você descreve sua própria presença ali.
ResponderExcluirBrigada
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