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Degredo (9)

Levei minhas coisas para o quarto sem fazer barulho. Não havia muita coisa para carregar, mas o gesto de atravessar o corredor com elas nos braços pareceu mais definitivo do que eu esperava. Deixei tudo no chão e fechei a porta. Por um momento fiquei parada, aguardando alguma reação da casa.

Depois fui ao banheiro.

A água demorou um pouco a esquentar. Fiquei ali esperando, encostada na parede, ouvindo o som do chuveiro bater no piso. Lavei o cabelo, passei sabonete pelos braços e pelo peito, e percebi que não precisava mais esfregar o corpo obsessivamente para tirar o cheiro de cigarro. Meu corpo deixara de ser uma evidência de crime. Certas rotinas terminam sem anúncio.

Quando saí, já era noite. No quarto, acendi apenas o abajur. Peguei uma camiseta larga e penteei o cabelo ainda úmido. Então abri a janela. A rua estava silenciosa. Apoiei os braços no parapeito e acendi um cigarro. O primeiro trago veio com uma tontura leve, agradável. A fumaça subiu devagar diante do vidro.

Olhei para minhas mãos segurando o cigarro. Depois para minhas pernas, iluminadas pela luz fraca do quarto, elas se estendiam para fora, relaxadas, ganhando uma extensão que o interior não permitia. Traguei outra vez.

A larga malha caía até metade das minhas coxas. O ar da noite tocava a pele que ficava descoberta. Percebi o peso do meu próprio corpo apoiado no parapeito, a inclinação discreta dos ombros.

Um carro passou ao longe, depois desapareceu. O vidro refletia uma parte do quarto, misturada à minha silhueta. Notei a postura da minha coluna, o ritmo da respiração, a camiseta movendo-se levemente a cada inspiração. Avaliei a minha própria presença ali, a imagem que meu corpo oferecia ao mundo.

Dei mais um trago e soprei a fumaça para fora. Fiquei observando enquanto ela se abria no ar e sumia. Ted gostava de fazer isso, acompanhar a fumaça depois que eu tragava, até o fim.

Apaguei o cigarro no parapeito e fechei a janela.


"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. "Meu corpo deixara de ser uma evidência de crime." Joyce, essa frase me deu um nó na garganta. 🥺 É libertador demais parar de se esconder dentro da própria pele, né?

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  2. A cena da janela ficou cinematográfica. 🚬

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  3. Existe uma dignidade muito profunda em como você descreve sua própria presença ali.

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